15.6.20

Reviravolta

E eis que o Presidente da República decide dar uma reviravolta à vida de toda a gente e anuncia ontem que as escolas abrem todas normalmente e obrigatoriamente já na próxima semana. E eu tenho o coração aqui num limbo, sem saber se contrai ou descontrai com tal notícia.

Por um lado, imagino o trabalho que vai existir em tantas escolas, depois de terem sido esvaziadas, de voltarem a preparar tudo para receber novamente o número normal de alunos. E para apenas mais duas semanas de escola. Imagino as dúvidas que vão existir e que terão de ser resolvidas já esta semana. Abrirão as cantinas novamente?
Imagino os pais e as crianças que já se tinham organizado e preparado mentalmente para não haver mais escola este ano e vêem-se agora a braços com esta nova decisão. Mesmo nós tomámos decisões para as férias, contando que o ATL não estivesse 100% operacional, que não poderão ser alteradas e que não sei se à nova luz dos acontecimentos serão as correctas. 
E se já não compreenderia muito bem que em Setembro tudo estivesse normal quando dois meses antes as regras eram tão apertadas, imaginem o meu estado de incompreensão com esta medida. Se daqui a uma semana as crianças vão todas regressar normalmente à escola, por que raio a minha filha e tantas outras crianças tiveram de passar por um ambiente de regras tão restritas e desagradáveis até esta semana? Não entendo este passar do 8 para o 80.

Por outro lado, sinto-me aliviada. Mesmo sabendo que será um regresso total, indo todos os dias à escola, acho que custará menos se puder ver a sua educadora, os seus amigos, se poder brincar com eles. Enfim, veremos porque hoje já vieram dizer que cada criança deve manter a distância de 1 metro das restantes, o que, cá entre nós, não me parece ser viável numa escola com dezenas de alunos por sala. Mas acho que ainda assim o ambiente será melhor do que aquele que vive neste momento e isso deixa-me o coração mais leve.

Mas aguardemos. Dada a qualidade da comunicação que este governo tem demonstrado desde que tudo isto começou, ainda pode acontecer amanhã vir o primeiro ministro dizer que afinal as escolas vão mas é fechar todas novamente.

11.6.20

Junho com o coração do tamanho de uma ervilha

Este mês a escola da Mini-Tété abriu novamente as portas, embora com dois grupos muito reduzidos de crianças dado a exigência do protocolo sanitário, distribuindo assim as crianças pelos vários dias do mês. Isto levou a que a escola aceite a Mini-Tété...dois dias. Sim, dois dias neste último mês de escola.

Não vou ser hipócrita e dizer que a queria a ir todos os dias para a escola. Não queria. Depois de dois meses e meio em casa e sabendo eu as condições que a esperavam, não queria mesmo que houvesse um regresso tão drástico. Mas já me estava a preparar mentalmente para que ela fosse pelo menos dois dias por semana de forma a que eu pudesse regressar ao trabalho (lentamente, é certo). Ir apenas dois dias num mês à escola parece-me simplesmente...parvo e sem qualquer propósito. Socializar com as outras crianças? Farão dois dias num mês realmente diferença? Impedir o abandono escolar? A sério? Dois dias de escola vão impedir o quê? Retirar as crianças de lares violentos ou stressantes? Dois dias num mês vão realmente fazer a diferença para estas crianças? Promover o regresso dos pais ao trabalho? Deviam ter visto a cara do patrão quando lhe foi anunciado que eu só trabalharia dois dias este mês (eu ajudo: não ficou propriamente encantado...). Parece-me por isso terrivelmente desnecessário toda a preparação da escola e toda a organização que foi necessária fazer para as crianças irem apenas dois dias. Mais valia não abrirem. Não entendo. Ou melhor, entendo, desta forma o Ministro da Educação pode dizer alegremente que todas as crianças tiveram acesso à escola este mês (mesmo que tenha sido apenas uma ou duas vez). 

Entretanto, conseguimos organizarmo-nos com o ATL e os vizinhos para que eu pudesse ter mais uns dias livres para regressar ao trabalho, o que é sem qualquer dúvida um sentimento agridoce. Eu não estava propriamente farta de estar em casa com a Mini-Tété, esta foi a nossa vida durante anos, sabemos vivê-la sem grandes percalços. Por outro lado, estava sem dúvida a sentir falta de trabalhar, até porque gosto do que faço, e faz-me bem à cabeça sair de casa e ser útil noutro papel para além de o de mãe Digo e repito: acho que a situação ideal para mim era um part-time bem pago. :D

O regresso ao trabalho não me custou particularmente mas acho que nunca chorei como tenho chorado ao deixar a Mini-Tété, também a chorar, na escola ou no ATL. E em minha defesa, o ano passado a Mini-Tété deixou apenas de chorar ao ir para a escola quando faltava um mês para a escola acabar e mesmo assim eu deixava-a de cabeça tranquila (e coração apertado porque não sou uma pedra), sem lágrimas, porque sabia que era apenas uma questão de tempo até ela perceber que a escola podia ser um sítio bom e divertido, e que ela ficava bem entregue, num sítio onde cuidariam bem dela. Agora...quase todas estas premissas falham, porque não é suposto eu deixar a Mini-Tété num sítio onde é recebida por adultos de máscara que ela não reconhece (ou mesmo não conhece de todo) e a assustam, onde não está a sua educadora, onde não estão os seus amigos (os grupos diários de 6 crianças incluem várias idades e turmas), onde vai passar o dia sozinha sentada a uma mesa, de costas para as outras crianças, numa sala onde os brinquedos e livros que ela gostava desapareceram, onde leva o seu almoço, onde brinca sozinha no recreio, onde mal consegue comer seja o que for com o nervos. Caramba, é violento. Para ela e para mim, que me sinto a falhar com quem não o deveria fazer. Acho que dificilmente me esquecerei rapidamente do caco que fico e do ar de pânico da minha filha quando a deixo. É tudo uma grande bosta, é o que é.

Logo no início do mês, a Associação de Pais partilhou umas fotografias a mostrarem como estava a "nova" escola, com as parcas mesas e cadeiras dispostas nas salas vazias, os autocolantes nos bancos corridos indicando onde as crianças se devem sentar para se manterem afastadas entre as elas, e toda uma série de coisas com o objectivo de acalmar o coração dos pais. Mas o meu, ao ver tudo aquilo encolheu-se no tamanho de uma ervilha e acho que ainda não voltou ao seu tamanho normal. Talvez em Setembro volte. Mas depois penso que se em Setembro a escola abrir normalmente, com todas as crianças ao molho, com tudo como era antes, então será que faz sentido dois meses antes estar a obrigar as crianças a passar por um protocolo sanitário tão apertado que não lhes traz propriamente nem educação nem felicidade?

Felizmente, nem todas as crianças e respectivos pais se sentirão assim. Felizmente, para alguns isto é mais fácil ou as condições escolares serão outras. Quando a vamos buscar, a Mini-Tété vem com um sorriso, há dias que coincidem com a ida da vizinha e sei que as deixam almoçar ou estar à mesma mesa porque os avisámos que as duas estão em contacto diário. Acredito que nem tudo será mau, não imagino a escola transformada num inferno, simplesmente não é a escola como deveria ser e isso não ajuda a acalmar todos os corações. Sei que não sou a única a pensar assim, quer a educadora da Mini-Tété, quer as funcionárias do ATL, quer as funcionárias da escola não hesitam em dizer que "aquilo" não é a escola/ATL e que é duro para as crianças.

E para já resta apenas enxugar as lágrimas (as minhas e as dela) e pensar que tudo isto vai passar. E que vai ficar tudo bem.

[Claro que seria pior se a Mini-Tété estivesse doente, claro que seria pior se ela fosse todos os dias nestas condições, claro que seria pior eu ter pedido o emprego...sei tudo isto. Mas saber que podia ser pior do que é não faz com que eu me sinta feliz por aquilo que tenho de mau. Só porque podia ser pior.]




25.5.20

O que se aprende no jardim-de-infância?

Assumo que sempre achei que quando a Mini-Tété entrasse na escola com 3 anos, no pré-escolar (jardim-de-infância), ia basicamente passar o tempo a fazer desenhos, a pintar com os dedos, a cantar músicas com sons de animais e coisas que tal. Imaginem portanto o meu espanto quando a vi logo no primeiro ano a saber escrever o seu nome em maiúsculas. E a copiar sem grandes problemas qualquer palavra em maiúsculas que lhe puséssemos à frente. Tinha deixado na escola a minha bebé e de repente devolviam-me uma criança crescida capaz de reconhecer letras e de as copiar ou até mesmo escrever sozinha o seu nome.

Este ano está no segundo ano (na turma dos 4 anos, portanto) e à conta do coronavirus está quase há 2 meses e meio em casa, a fazer as coisas que a educadora indica para cada dia e há momentos em que dificilmente controlo abrir de boca de espanto. Já consegue olhar para os dias da semana e "ler" cada dia (não lê obviamente, mas reconhece que aquele conjunto de letras significa "samedi" [sábado], por exemplo). Sabe todo o alfabeto em maiúsculas, reconhecendo cada letra. Sabe todo o alfabeto em minúsculas reconhecendo cada letra. Estamos agora a trabalhar palavras que tenham o mesmo som e as diferente maneiras como se escreve esse som. Escrevo palavras em minúsculas que ela reescreve em maiúsculas sem qualquer dificuldade. Todos os dias há exercícios de grafismo (ondas, espirais, etc) para treinar a mão para a caligrafia do próximo ano. Conta até 29. Escreve bem os números até 19 quando ditados de forma aleatória. Já faz contas de somar! Preenche tabelas de dupla entrada! Indica a primeira letra ao ouvir algumas palavras. E daqui a um mês deverá ser capaz de fazer a correspondência entre as fotografias dos seus coleguinhas de turma e o seu nome escrito.

E eu acho tudo isto fantástico. Depois penso que no colégio onde andei, aprendi a escrever e a ler no último ano do pré-escolar (turma dos 5 anos), ou seja, era apenas um ano mais velha que a Mini-Tété e por isso com a idade dela se calhar até já fazia tudo isto e simplesmente não me lembro. Não faço qualquer ideia do programa escolar português neste momento (nem o daqui sabia, quanto mais...) nem mais precisamente o que aprendem as crianças no jardim-de-infância. Nunca pesquisei. Tenho quem me diga que aprendem o mesmo que aqui, tenho quem me diga que não é assim de  todo. A escolaridade em França não é levada da mesma forma que em Portugal, e se nalgumas coisas será melhor, noutras é francamente pior. Mas nunca comparei os programas lectivos por isso não tenho qualquer ideia.  Por isso, digam-me: o que aprendem as crianças no jardim-de-infância em Portugal? É assim? É mais brincadeira? Aprendem outras coisas?





12.5.20

Os argumentos da abertura das escolas

Amanhã, cerca de um milhão e meio de crianças regressará aos jardins-de-infância e às escolas primárias. Não a Mini-Tété, cuja escola, perante a necessidade e/ou vontade de mais de 30% dos pais em colocar os seus filhos na escola, decidiu que não seria possível abrir este mês cumprindo todas as normas que o novo protocolo sanitário exige. E eu, depois de saber desta decisão, dormi finalmente melhor depois de dias de insónias, aliviada por não ter de escolher já entre prejudicar o meu emprego ficando em casa ou enviar a minha filha para um sítio mais parecido com uma prisão do que com uma escola.

Mas depois as insónias apareceram outra vez ao pensar neste milhão e meio de crianças que regressará amanhã à escola e como viverão tudo isto. Espero que rapidamente se perceba que a sanidade mental das crianças também tem de ser considerada, que o seu gosto pela escola deve ser cultivado e não pisado, e que na teoria todas as medidas podem ser as melhores mas na prática simplesmente não são funcionais. Espero que, quando a escola da Mini-Tété se organizar e abrir, já algumas coisas tenham mudado.

Irrita-me sobretudo ouvir o governo argumentar sobre este regresso à escola. Saem-lhes argumentos brilhantes como:
- "As crianças precisam de socializar". Pois precisam. Concordo. Aliás, o objectivo dos jardins-de-infância é sobretudo esse. Mas todas as medidas do protocolo sanitário foram criadas exactamente para a não socialização das crianças, de forma a evitar a transmissão do vírus. Por isso, não, regressar à escola não promoverá esta necessidade.
- "As escolas vão abrir para evitar o abandonar escolar". A minha filha tem 4 anos. Quatro anos. Por ela nunca mais voltava à escola, adora estar em casa, só quer poder brincar com a vizinha e o mundo fica perfeito. Entrou na escola há menos de um ano e meio, depois de 3 anos em casa comigo, ainda nem tinha criado verdadeira ligação à escola para sentir que esta se está a perder. E depois, abandono escolar no jardim-de-infância? A sério? Imagino mesmo que à conta desta quarentena teremos uma série de miúdos rebeldes de 3 e 4 anos a escapar-se às aulas para irem fumar coisas para trás do pavilhão desportivo. Mas com sorte, este regresso escolar conseguirá evitar tal desgraça! Haja paciência. 
Ou a mais recente do Ministro da Educação:
- "Há mais riscos ao ficar em casa do que em ir à escola". Por favor, alguém explique ao senhor que se assim fosse não haveria razão para as escolas terem fechado e toda a gente estar fechada em casa há quase 2 meses. Mas expliquem de-va-ga-ri-nho já que claramente há coisas que ultrapassam este senhor.
A verdadeira razão desta abertura escolar passa obviamente pela necessidade que há de os pais regressarem aos seus trabalhos, pela saúde da economia doméstica e do país. E eu entendo este argumento, não há como não entender, ninguém quer famílias a passar fome à conta deste vírus. Mas mais uma vez isto funciona na teoria, porque depois na prática tudo se esbardalha ao comprido. Devido às medidas do protocolo sanitário, o número de crianças por sala é verdadeiramente reduzido (na escola da Mini-Tété e em muitas outras, só podem ir 5 ou 6 crianças por sala), o que obriga a que haja rotatividade de grupos de alunos para que todos tenham acesso à escola em dias diferentes. Por isso, são várias as situações em que as crianças irão dois dias por semana à escola, se não apenas um dia. Ou uma vez em quinze dias. Em que é que isto ajuda os pais a retomar o emprego? A ganharem o seu salário? E não resisto a perguntar: em que é que isto ajuda à famosa socialização das crianças e à resistência ao abandono escolar? 
Mas, mais uma vez, para o senhor Ministro da Educação, tudo está bem. O seu objectivo é que até ao final do Maio todas as crianças possam ter ido à escola pelo menos um dia. Entendo-o, assim poderá subir ao púlpito e anunciar orgulhosamente que conseguiu criar condições para que em Maio todas as crianças regressassem à escola (só um dia mas isso é segredo, shiuuuu). Faltam-me estudos para este tipo de raciocínio.

Sei que estas medidas chegaram em parte a Portugal, aplicadas para já às creches. Sinceramente, se acho complicado quando falamos de crianças de 3, 4 e 5 anos, parece-me simplesmente impossível para crianças abaixo dos 3 anos. Mais uma vez, entendo a necessidade de se abrirem escolas e creches, entendo a necessidade de medidas que evitem a propagação do vírus, mas não entendo como é que as querem fazer aplicar a crianças tão pequenas, criando um clima de stress e ansiedade que a elas lhes fará pior que este maldito vírus. Não é fácil ser pai numa altura destas e custa-me ainda mais ver que, não fosse tudo isto suficiente para criar insónias a muitos, ainda se cria um clima de culpabilização ao estilo de "os pais que se preocupam ficam em casa com as crianças, os que não querem saber mandam-nos para a escola". Tudo isto já não é fácil, tenham mas é juízo e parem com os julgamentos.



5.5.20

Não sou capaz de entender

Eu espero daqui a uns anos estar a rir-me disto. Espero daqui a uns anos achar que não tinha razão, que na minha cabeça tudo era pior do que realmente foi. Espero daqui a uns anos poder falar disto sem a bola de ansiedade que se parece ter instalado na barriga, no coração, na cabeça e em cada cantinho do meu corpo (que não é pequeno).

Ontem a câmara municipal partilhou com os pais as medidas gerais a tomar de um extenso protocolo para o regresso das crianças à escola. Não vos vou maçar em demasia. Direi apenas que na escola da Mini-Tété só aceitarão 5 ou 6 crianças por sala. Que retirarão os brinquedos, a cozinha, a estante dos livros, os diferentes "cantinhos de brincadeira" a que as crianças estavam habituadas a ir ao poderem circular livremente pela sala. Porque agora não poderão. Agora terão uma mesa (sempre a mesma) para cada criança, onde passarão o dia. Onde poderão até a vir a ter de almoçar. Não poderão brincar com as outras crianças ou aproximar-se. No recreio não terão acesso às bicicletas, nem às bolas nem aos carrinhos com que costumam brincar. Também não poderão ir até à pequena cabana ou à ponte de brincadeiras. Ah, e claro, não poderão brincar umas com as outras nem aproximar-se. Expliquem-me por favor, porque a minha inteligência não chega definitivamente para tanto, a que é que estas crianças vão brincar, cada uma isolada na sua área de x metros quadrados, sem amigos ou brinquedos? A minha filha é imaginativa, vejo-a a criar mil e uma brincadeiras no seu pequeno espaço exterior mas ainda assim precisa de paus de giz para fazer desenhos ou de pedras para criar histórias. Não entendo. Terão de lavar as mãos à chegada, antes do recreio, depois do recreio, antes de comerem, depois de comerem, cada vez que se assoarem...Terão de ser absolutamente autónomos a calçarem-se e a vestirem-se porque não deverão ter ajuda. A educadora terá uma máscara e deverá evitar aproximar-se.

Há mais medidas. E não é um problema da escola da Mini-Tété, nas outras será assim também. Já ouvi que haverá escolas que retirarão as sestas às crianças por não ser possível respeitar as distâncias entre as pequenas camas. Poderão repousar a cabeça sobre os braços na mesa onde passarão a grande maioria do dia.

Eu entendo que as escolas tenham de abrir porque os pais precisam de regressar ao trabalho para ganhar dinheiro. A sério que entendo. E também entendo que têm de haver medidas porque se não o vírus irá propagar-se à velocidade da luz. A sério que entendo. Mas o meu entendimento acaba aqui quando de repente o sítio onde terei de deixar a minha filha se parece com tudo menos com uma escola...E ela tem apenas 4 anos. 

3.5.20

Para não nos esquecermos

Esta ideia não é minha, vi partilhada numa página de facebook de uma familiar e achei que seria uma boa ideia fazer um post semelhante por aqui.

Quando 2020 começou, ninguém pensou que meses depois estaríamos nesta situação, com tanta gente em casa, com escolas fechadas, com trabalhos em risco. E quando tudo isto passar (porque vai passar) bastarão alguns anos para que muitos de nós mal se lembrem de tudo o que viveram. Quando, daqui a muitos anos, tentar contar à Mini-Tété como foram estes meses, haverá lapsos, não me lembrarei de tudo e será mais difícil descrever o quadro geral, até porque a minha experiência não é a mesma dos meus vizinhos, nem a destes é igual à dos amigos. Cada medida afecta-nos de forma diferente e cada um de nós terá as suas próprias lembranças desta situação. Por isso, fica aqui registado o estado do país (França) e do mundo, no dia 1 de Maio de 2020, sexta-feira. A lista é longa e poderá ser actualizada (se quiserem participar, considerem-se convidados).

- O isolamento social começou oficialmente numa terça-feira, dia 17 de Março, às 12h00. Há 46 dias.

- As escolas fecharam dia 16 de Março e no fim-de-semana que precedeu esta segunda-feira, muitas pessoas já não saíram de casa. Há 49 dias.

- Com as escolas fechadas, o ensino tem sido mantido on-line. No caso da Mini-Tété, recebemos e-mails com as fichas a fazer e com os objectivos de aprendizagem que faltam cumprir para acabar o programa escolar. Depois das férias da Páscoa (Abril), a educadora criou um calendário semanal com os trabalhos diários a executar e enviou-nos de uma só vez todos os documentos necessários até ao final do ano lectivo. Partilhamos os exercícios feitos com fotografias e recebemos a indicação se está bem ou se é preciso trabalhar algo em específico.

- Todos os comércios fecharam com excepção das bombas de gasolina, tabacarias, estabelecimento de consumo alimentar (mercearias, supermercados, hipermercados, padarias, frutarias..), farmácias e bancos.

- Nestes, há linhas nos chão para que se formem filas com as pessoas afastadas 1 metro umas das outras.

- Os cabeleireiros e manicures fecharam para grande desespero de muita gente. Eu pinto o cabelo em casa por isso não entrei em pânico. E decidi fazer a experiência idiota de não o pintar enquanto durar o confinamento para ver qual a percentagem de cabelos brancos que realmente tenho. Estou velha, é tudo o que tenho a dizer e não vamos mais falar sobre isto.

- Os restaurantes fecharam. Há quem faça entregas em casa ou permita ir buscar. Quando, em Abril, alguns McDrive (serviço Drive do McDonald's) abriram, formaram-se filas de 3h de espera. A mim também me apetece um McChicken mas não tanto.

- Parques e praias estão interditos. Os parques infantis também.

- As competições desportivas foram canceladas.

- Os festivais de Verão foram cancelados.

- As igrejas e outros locais de culto fecharam.

- Para sair de casa, precisamos de preencher um atestado indicando se a) vamos trabalhar, b) vamos fazer compras de bens de primeira necessidade (comida, medicamentos...), c) vamos sair por motivos de saúde (p.e. ir ao médico), d) vamos sair por motivos familiares inadiáveis (como um funeral), para assistência a pessoas vulneráveis ou guarda de crianças, ou e) vamos fazer saídas curtas, ligadas a actividade física individual ou a necessidades de animais de companhia. Se não é para nenhuma destas coisas, fica-se em casa.

- A partir do dia 23 de Março, para exercício físico individual ou passear com as crianças, passou apenas ser possível uma vez por dia, durante uma hora, num raio de 1 km. No atestado passámos a ter de escrever a hora de saída de casa.

- Casamentos, celebrações familiares e festas de aniversário foram canceladas.

- Só podem estar presentes 20 pessoas nos funerais.

- Bebés e crianças pequenas não compreendem muito bem porque é que só podem ver os avós e outros familiares e amigos através de um ecrã ou de janelas.

- Não se dão abraços e beijos. Nem apertos de mão.

- As pessoas devem manter-se afastadas umas das outras no mínimo um metro.

- Não há máscaras e luvas suficientes nos hospitais.

- Há menos ventiladores do que deveria haver.

- As pessoas passaram a usar máscaras e quando entrarmos na fase de desconfinamento haverá locais onde será obrigatório o seu uso.

- Nos primeiros dias, o papel higiénico esgotou em quase todo o lado. O gel desinfectante também. E as massas. Agora também é difícil encontrar sabão para as mãos. E farinha, porque toda a gente quer fazer pão em casa. Mas já há papel higiénico.

-  Nalguns comércios, foram criados horários de entrada específicos para pessoas de risco.

- Em muitos comércios, foram colocados painéis de acrílico entre os funcionários e os clientes. Um pequena abertura permite os pagamentos.

- Em caso de suspeita de contágio, não devemos ir para as urgências. Ligamos para que nos seja feita uma teleconsulta ou para que um médico nos receba. Idas ao hospital ou chamadas para o 112 ligadas aos coronavírus apenas em caso de dificuldades respiratórias. Apenas são testados os doentes que apresentem sintomas agudos ou os doentes hospitalizados por outras patologias e que apresentem sintomas do coronavírus. Dizem que a partir do dia 11 de Maio, as pessoas que apresentem sintomas ou que tenham estado em contacto com pessoas contaminadas também serão testadas.

- O aeroporto de Orly fechou no dia 31 de Março.

- Um pouco por todo o mundo, às 20h, batem-se palmas aos médicos e pessoal hospitalar que luta para salvar vidas. Também há concertos e brindes de janela para janela.

- Há concertos online, visitas a museus online, espectáculos de humor online, aulas online de yoga, pilotes, aeróbica, zumba, etc...

- Com as escolas fechadas, os pais (ou apenas um dos pais) com filhos até aos 16 anos passaram a poder ficar em casa com eles. Em Portugal, é até aos 12 anos. Muitos destes pais estão em teletrabalho. Palminhas para eles e que todos cheguem ao fim disto com alguma sanidade mental.

- Teoricamente, o desconfinamento começará dia 11 de Maio. A partir de 30 Abril e durante 7 dias, um mapa de França com as regiões pintadas de verde, laranja ou vermelho é exibido ao país. A 7 de Maio, um único mapa apenas com as cores verde e vermelha será mostrando, informando assim quais as regiões onde a circulação do vírus e/ou a saturação dos serviços de reanimação é menor ou maior respectivamente, dependendo disto as diferentes medidas de desconfinamento que serão aplicadas. Nós estamos numa região vermelha, pelo que as medidas poderão vir a ser mais restritas do que o plano apresentado para já para as regiões verdes.

- As Universidades só abrirão em Setembro.

- A 11 de Maio as creches, jardins-de-infância e primárias abrirão, com turmas não superiores a 15 alunos e um protocolo sanitário difícil de executar. Ninguém percebe muito bem como é que isto se vai passar, com crianças a 1 metro umas das outras, com máscaras a serem usadas por crianças acima dos 6 anos, com desinfecções constantes, entre outras medidas. Os ciclos e liceus dependem dos valores de circulação do vírus. 

- Até este dia, em todo o mundo, foram contabilizados mais de 233000 mortas por coronavírus. Cerca de 3.24 milhões de pessoas foram diagnosticadas portadoras do vírus. Nos Estados-Unidos, já morreram mais de 63000 pessoas. Em Itália, 27.967 mortos. No Reino Unido, 26.711 mortos. Em Espanha, 24.824 mortos. Em França, 24.376 mortos.

- Neste dia, em França, 24595 hospitalizações devido ao coronavírus. Em reanimação estão 3878 pessoas. Nos hospitais, já morreram 15369 pessoas e nos lares morreram 9132 pessoas. 





1.5.20

As escolas vão abrir! - parte 2

Se há coisa que este governo não é, é coerente. Todos os dias, ou todas as semanas, saem diferentes informações, por vezes contraditórias e uma pessoa fica sem saber para que lado se virar. Repito, não será fácil tomar decisões numa altura destas, em que tão pouco se sabe e se é  obrigado a encontrar o equilíbrio certo entre a saúde de um país e a sua economia, mas caramba isto cansa, mexe com os nervos, impossibilita que nos organizemos, que saibamos com o que contar.

Na terça, o primeiro-ministro francês apresentou o seu plano para o fim progressivo do confinamento. Foi anunciado que os jardim-de-infância afinal abrirão dia 11. Ah, então a Mini-Tété já não entra dia 25, mas dia 11, certo. A educadora entretanto mandou uma mensagem a todos os pais a perguntar a título informal quantos de nós estariam a pensar levar as crianças à escola no dia 25. Mas afinal é dia 25?
Não, é mesmo dia 11. Entretanto a associação de pais indica que em contacto com a Câmara Municipal, esta ainda não decidiu se a escola vai abrir ou não. Ok...De qualquer forma, o ministro da educação veio dizer que só poderão ser grupos de 15 alunos por sala e que portanto as escolas devem organizar-se para que cada grupo de 15 alunos vá dia sim e dia não à escola, ou semana sim e semana não. Claro que ainda não se sabe nada sobre a cantina ou o ATL, pelo que continuamos sem saber se há condições para regressar à escola e ao trabalho, embora se a escola abrir não haja propriamente escolha e os patrões vão exigir o regresso dos funcionários. Mesmo que dia sim, dia não, ou semana sim, semana não. Ah, não, afinal há escolha. Até ao fim de Maio, os pais trabalhadores podem mesmo decidir ficar por casa, continuando a receber o valor que têm recebido. Ah, então e agora? Decidimos o quê? Calma, porque entretanto vai sair um mapa de França com zonas verdes e zonas vermelhas, indicando assim as regiões onde o confinamento será menor e maior dado a existência do vírus, condições dos hospitais, etc. A associação de pais diz-nos que se estivermos numa zona vermelha, a escola poderá não abrir. Confirma-se: estamos numa zona vermelha. Então e agora? Na próxima semana teremos de responder a uma carta da Câmara indicando se estamos ou não a pensar levar a nossa filha à escola na semana seguinte, mesmo que ainda não se saiba se a escola vai abrir ou não e em que condições. Como podemos decidir?

Respira, Tété, respira.

26.4.20

As escolas vão abrir!

Em França, o governo decidiu começar a abrir as escolas a partir do dia 11 de Maio, primeiro para apenas alguns anos específicos, depois outros entrarão dia 18 e por fim os restantes anos, dos quais faz parte o ano da Mini-Tété, com regresso marcado para dia 25. Apenas os alunos universitários estão dispensados de aulas presenciais até ao início do próximo ano lectivo.

É compreensível que se queiram as escolas abertas o mais depressa possível pois o fecho destas leva a que milhares de pais esteja em casa, sem poderem trabalhar, o que não é viável para algumas pessoas e/ou empresas, sobretudo se nos lembrarmos que aqui um dos pais fica em casa com os filhos caso estes tenham menos de 16 anos, e não no máximo 12 anos como em Portugal.

Esquecendo a economia, claro que tudo isto parece à partida um enorme disparate pois a facilidade com que nas escolas as viroses se passeiam alegremente pela grande maioria das crianças leva a que rapidamente se pense que basta uma criança infectada para possivelmente contaminar logo as outras 29 (e respectivas famílias por arrasto...). Eu sei que em Setembro o vírus ainda por aqui andará pelo que adiar a abertura das escolas para essa data parece simplesmente um adiamento de um problema com o qual se vai ter de lidar na mesma, mas não deixo de pensar que muito provavelmente nessa altura os hospitais não estarão tão cheios como agora nem os médicos tão cansados.

E enquanto esperamos pela próxima semana para saber melhor como se processará este regresso escolar, vamos assistindo às diferentes declarações dos vários ministros e às opiniões do conselho científico que aconselha este governo. E é aqui que a porca torce o rabo, não só pela incoerência existente entre declarações como pela óbvia dificuldade que será executar algumas das medidas propostas.

Então, primeiro falou-se de apenas metade das turmas estar presentes nas salas, depois o número reduziu para 10 alunos por sala e já li algures que, nas turmas com crianças da idade da Mini-Tété, o número máximo de alunos pode mesmo ser apenas 5. Mas nesse caso onde estão as outras crianças? Em casa? E quem decide que crianças ficam em casa ou vão à escola? O ministro da educação informou-nos entretanto que o regresso à escola será na base do voluntariado. Como assim? Para os pais que trabalham, não haverá outra hipótese senão levar as crianças porque as empresas não entenderão porque razão ficarão os trabalhadores em casa se as escolas estão novamente abertas. Ainda assim, parece-me acertado que os pais com possibilidade de ficar em casa (por desemprego, teletrabalho, etc) tenham o direito a decidir se querem as crianças na escola ou não. Fala-se de manter as crianças afastadas umas das outras, talvez com uso obrigatório de máscara (entretanto li que pelo menos em crianças da idade da Mini-Tété esta não será usada), em mesas distantes, com o seu próprio material escolar (mas vão agora obrigar os pais a comprar material escolar para um único mês de escola?), com o seu almoço e talheres, uma vez que também há a possibilidade das cantinas não abrirem. No recreio brincarão separadas. Sinceramente, eu entendo tudo isto, entendo todas estas medidas, na teoria fazem todas muito sentido. Mas na prática? A Mini-Tété partilha o espaço exterior com a melhor amiga, nossa vizinha, da mesma idade. Compreenderam bem que não podem brincar juntas, fica cada uma do seu lado, e ainda assim, às vezes, porque são crianças, damos com elas a aproximarem-se. Tem de estar sempre um adulto por perto para relembrar a distância a manter. Como é que querem fazer isto nos recreios? 

E qual será o ambiente nestas escolas? A Mini-Tété não sai de casa há mais de um mês, ainda não viu ninguém de máscara, ainda não sentiu o ambiente esquisito duma simples ida às compras. Que vontade tenho eu de a ir entregar a uma escola, onde verá provavelmente uma série de adultos de máscaras, a fazer gincana para não se aproximarem uns dos outros enquanto seguram fortemente as suas crianças pela mão, num ambiente tenso e provavelmente com choros daquelas que não têm qualquer vontade de regressar à escola, com educadoras e auxiliares nervosas, ansiosas e preocupadas em gerir tudo da melhor maneira, procurando cumprir todas regras e fazer com que as crianças também as cumpram? Educadoras estas que terão não só de estar com aquelas crianças na escola como também terão de acompanhar as crianças que estão em casa e que têm a obrigação de terminar o programa escolar (aqui a escola é obrigatória a partir dos 3 anos e desde que o isolamento começou que há trabalho escolar em casa - e oh se eles têm coisas para aprender! Fica para outro post...). Que vontade tenho de a deixar numa escola onde não verá a maioria dos seus colegas, onde terá de estar afastada de todos os outros e dos adultos que a rodeiam, onde as regras  e rotinas serão completamente diferentes?

Sinceramente, não me tem incomodado minimamente a maneira como este possível isolamento a pode afectar. Tem 4 anos, esteve em casa comigo até aos 3 anos pelo que nada disto é novo (apenas não podemos sair para ir ao parque ou a outros sítios), não tem saudades da escola (gostaria apenas de poder brincar com a vizinha da frente), e daqui a 30 anos muito provavelmente não se vai lembrar disto (porque de facto não é uma situação assim tão nova e diferente). Mas tenho realmente receio deste regresso à escola, do ambiente que vai encontrar, da ansiedade e stress que poderá absorver...
Entendo praticamente todas as medidas na teoria, mas não acho sinceramente que na prática elas sejam assim tão fáceis de executar.
Resta-nos esperar por indicações mais precisas (e mais realistas) e ver como tudo se passará com as crianças e adolescentes que regressarão à escola nas primeiras datas indicadas, com a esperança que quando chegar dia 25 o sistema já esteja mais oleado e tudo se passe de maneira mais calma.

10.4.20

Temos sorte

Está sol, está calor, estou sentada no sofá, ao computador, com as portas janelas escancaradas para o exterior, a sentir a brisa que entra, e a ouvir a Mini-Tété e as crianças vizinhas na sua tagarelice habitual. Vou-lhes deitando o olho para garantir que não se distraem. Aprenderam depressa que podem partilhar o espaço exterior mas que fica cada uma do seu lado, criam brincadeiras assim, vão buscar os mesmos brinquedos, carros, folhas e lápis, bonecas e legos, e brincam ao mesmo, à distância, enquanto falam e falam. E aproveitam o sol e a sorte de poderem não estar sempre fechadas em casa. 

Há dias piores, há dias em que a ansiedade é maior, em que todos os planos para o futuro são postos em causa, em que o medo de alguém dos nossos ficar doente é aterrador, em que se chora por aqueles que já perderam pessoas, em que se pensa que nada disto é justo.

E depois, para balançar tudo isto, há dias destes. Com sol, com brisa, com as vozes das crianças a voarem até ao céu azul e se pensa, que no meio de tudo isto, nós até temos sorte.

3.4.20

Pensamentos soltos

Esta semana abateu-se cá por casa um certo desânimo e algum stress. Talvez por ter sido a terceira semana de isolamento, talvez por nos termos apercebido que ainda teremos pelo menos mais um mês disto pela frente, talvez porque a hora mudou e com ela mudaram também as nossas rotinas, talvez porque tenhamos começado a fazer contas à vida e às consequências que tudo isto trará nos salários, talvez porque amanhã seria o dia de receber os avós que vinham buscar a Mini-Tété para as férias, não sei. Sei apenas que foi a pior das três semanas que passaram.

Também houve coisas boas, claro que sim, que para desgraça já basta toda a situação, mas a moral não esteve realmente lá em cima. Noto que já entranhei tanto o isolamento que quando vejo alguma série ou novela e eles dizem "bem, vou passear" ou "vou até ali à casa da não-sei-quantas", me acendem as campainhas e penso "não podem! Não têm autorização para isso!". Sinto o mesmo quando vejo nos blogues, no instagram ou no facebook, os portugueses a irem até casa uns dos outros para se verem à janela. Tal luxo não é permitido por aqui.

Hoje foi dia de ir às compras e aproveitei para comprar uns ovinhos para fazer uma "caça ao ovo" caseira na Páscoa. Não sei como é em vossa casa, mas ir às compras tira-me o sono. O ter de agarrar no carrinho, pegar nos produtos, voltar a pegar-lhes depois de terem passado pelas mãos do funcionários da caixa...e eu sei que se pode usar luvas e que não se deve levar as mãos à cara, mas digam isso a alguém que sofre de alergias e precisa de se assoar. Enfim...tira-me o sono.

E por falar em Páscoa, o que acham das novas medidas impostas em Portugal? Desde que o isolamento começou que tenho dito que a Páscoa será (ou seria?) um dos maiores problemas no que toca ao isolamento dos portugueses. Não apenas por todos os emigrantes que planearam ir aí nestas férias (eu que o diga...) como também as inúmeras famílias que até têm estado confinadas em casa mas que não prescindiriam de ir à terra, estar com os seus, mostrar os netos aos avós, que não resistiriam às chantagens emocionais dos mais velhos, pelas tradições, pela festa, pelo almoço de Páscoa. Por isso, fecharem os aeroportos e impedirem as viagens entre concelhos parece-me uma boa medida para não aumentar de forma drástica o número de contaminados.
Ainda esta semana vi no facebook um conhecido que vive em França e que chegado a Portugal decidiu reclamar por o obrigarem a fazer 2 semanas de quarentena. Devia ir com a ideia de estar com os amigos, com a família, fazer uma festa...Esta falta de noção é terrível. Mas acho que tanto se cai facilmente nesta falta de cuidado como se cai no exagero oposto e vemos pessoas que nem as janelas abrem, que criticam quem vá às compras e não se abasteça logo para um mês, que não aceitam que haja quem aproveite a ainda existente liberdade de poder sair e dar um pequeno passeio higiénico tomando todas as precauções necessárias (não é ir beber copos, não é ir para uma festa, não é ir para sítios cheios de gente...). Acho sinceramente que muita gente ainda não se apercebeu que este isolamento não é fácil psicologicamente para muitos e que às vezes sair 10 minutos, respirar ar fresco e regressar a casa é a diferença entre ter um bom dia ou afundar-se numa solidão fechada.

Tenho fé que na próxima semana estejamos mais animados. Que esta nuvem negra que por aqui se instalou se vá embora (mas dizem que vem aí chuva). Acho que vamos apostar numas séries, nuns filmes, nuns jogos (instalei o Sims 4!), fazer uma sessão de cinema caseiro com a Mini-Tété, fazer algumas daquelas tarefas que andamos a arrastar à meses, dançar mais, cantar mais, viver mais dentro do possível.

Eu sei que este post está escrito com algum desânimo e sem fio condutor mas sei que hoje não consigo fazer melhor. Para a semana será diferente. :)


24.3.20

Tempos estranhos

O ano começou normalmente, boas notícias avizinhavam-se, estava a conseguir ler um livro por mês aproveitando as minhas horas de almoço e sacrificando algumas noites, planeávamos as nossas idas a Portugal este ano e de repente tudo parou. Começou-se a ouvir falar deste vírus, dos hospitais cheios, da falta de meios. De como devagarinho chegou à Europa e de repente se instava o caos. 
Eu lembro-me de no início não ligar muito ao assunto, de não atribuir grande importância ao histerismo que comecei a ver à minha volta, até ao momento em que anunciaram o fecho das escolas. Soube-o até de uma maneira estranha, seguia os desenvolvimentos em Portugal e enquanto lia a notícia sobre as escolas de Portugal, algo mais abaixo me chamou a atenção. "França fecha as escolas a partir de segunda-feira". Ups.

Desde aí, tem sido uma catadupa de medidas e restrições. As escolas fecham. Os estabelecimentos abertos ao público fecham a não ser que sejam bancos, tabacarias, farmácias, bombas de gasolina ou comércio alimentar. A partir de hoje os mercados fecham. Deixamos de poder sair à rua a não ser com um atestado que indique a razão porque saímos. A partir de hoje, para exercício ou passear com as crianças, já só o podemos fazer uma hora por dia, uma vez por dia, e num raio de 1 km, com a hora a que saímos de casa escrita no atestado. Dizem que as escolas só abrirão depois das férias. Depois avisam que será só depois de as férias terminarem para todas as crianças (em França, as crianças não tiram férias todas ao mesmo tempo, o país divide-se em 3 zonas e as férias são desfasadas), no início de Maio. E este é o cenário mais positivo. Há quem fale que ainda temos 2 meses de isolamento pela frente. Há quem diga que este ano lectivo as escolas já não voltarão a abrir.

Eu tenho sorte. Estar em casa com a Mini-Tété não mexe comigo. Fiz isto durante 3 anos e ela tem 4, por isso não foi assim há tanto tempo. Sei que há dias em que a paciência é menor e outros em que tudo corre melhor, dias em que ela está de mau humor e outros em que o tempo até parece que voa. Consigo facilmente encaixar-me neste papel. E também tenho sorte porque, por estar em casa com uma criança, não estou a fazer teletrabalho, o que me deixa mais livre e com menos stress. Coragem a todas as mães que estão a trabalhar ao mesmo tempo que cuidam dos filhos. Acho que numa situação dessas, a Mini-Tété ganharia a medalha de ouro de horas à frente de televisão.

Também tenho sorte porque finalmente há a grande vantagem de viver no campo. Temos um pequeno espaço exterior onde a Mini-Tété pode brincar e apanhar sol, sem estar confinada entre paredes. Podemos sair sem nos cruzarmos com ninguém ou, na loucura, com uma ou outra pessoa (e cada uma fica do seu lado da estrada) e por isso quando os dias se complicam posso levar a Mini-Tété a dar  uma volta de bicicleta (já vi e o percurso que temos feito é de menos de 700 metros) ou a correr uns minutos. Não o fazemos todos os dias, prefiro ainda assim ficar em casa, mas que saber que tenho esta facilidade me ajuda, isso ajuda.

Para a Mini-Tété, tudo está quase bem. Não tem saudades da escola. Todas as manhãs trabalhamos e fazemos as fichas que a professora incansavelmente tem enviado por e-mail. Tem a mãe em casa com ela (e como está numa fase de "mãezite", está a delirar). Tem dias em que lhe apetece ir ao parque ou ver a família mas entende que não é possível. Agora não poder brincar com a amiga que vive mesmo em frente e com quem partilha uma parte do quintal, isso é que é difícil. Há dias em que apenas uma está lá fora e a outra observa pela janela (e isto é de partir o coração). E noutros dias, como hoje, estão as duas, cada uma na sua ponta, com metros de distânica, a saberem que não podem brincar juntas, mas ao menos conversam. E isto custa. A ela e a mim. Mas os pais de cada família ainda saem para trabalhar alguns dias por semana e por isso não podemos correr o risco de uma família poder contaminar a outra. Não seria justo. 

As férias foram canceladas. Ainda nem marcámos as de Verão porque sabemos lá como estarão as coisas por essa altura. Acho que a mim é o que me custa mais, não saber quando tudo isto termina. Preferia saber que ia durar x semanas ou x meses do que estar assim, sem saber, sem conseguir organizar e planear a minha vida.

Estamos calmos, pouco histéricos, ainda que sinta um apertozinho no coração sempre que o Jack vai trabalhar fora dado não sentir que haja condições para que o faça em segurança. Tenho asma e sinto-me pouco confortável com tudo isto, até porque não adoro hospitais e nos tempos que correm muito menos vontade teria de me ir enfiar num. Mas acho mesmo que estamos a levar isto de forma positiva, não há muito que possamos fazer para alterar seja o que for, por isso tentamos estar o melhor possível no melhor ambiente possível, sem discussões ou problemas.

E por falar em apertozinho no coração, também o senti no sábado quando decidi ir às compras depois de uma semana fechada em casa e para além do papel higiénico, também não havia carne, ovos, peixe, pouca massa...Ainda tive ali um momento de pânico de "ai, meu Deus, que afinal isto é mais grave do que eu pensei e eu tenho uma filha para alimentar, como é que eu vou fazer??" até ter respirado fundo e ter pensado que fui à tarde, horas depois do hipermercado ter aberto, que muito provavelmente tudo tinha sido comprado de manhã e ainda não tinham reposto até porque estavam menos empregados assim à primeira vista. Tive azar, foi só isso. Quero acreditar nisso.

E por aí? Como tem corrido este isolamento?

(agradecimento à Joana que me levou a escrever de novo aqui depois de tanto tempo calada. Não sei se continuarei assiduamente mas soube-me bem escrever, já tinha saudades :) )



3.1.20

Olá 2020

Vamos lá às resoluções de 2020? Não sei se arranjo 12 ou até se me apetece tentar alcançar 12 objectivos este ano mas aqui vamos nós:

1. Ler mais.
Tenho lido pouco comparado com o que lia antes de ser mãe, o que é absolutamente normal mas ainda assim acho que podia largar mais o telemóvel e aproveitar meia-hora à noite ou a hora do almoço para avançar mais a leitura. Tenho mantido as minhas escritoras favoritas em dia, não há livro novo que saia que não seja rapidamente devorado, mas começo a ter uns quantos novos na estante que ainda não li e isso não me agrada.

2. Organizar-me mais.
Um pouco mais de organização, não para conseguir acrescentar ainda mais coisas ao meu dia-a-dia mas para que este flua melhor, sem atropelos ou pressas desnecessárias. Perceber que às vezes mais vale perder um bocadinho mais de tempo agora para ganhar mais tempo depois.

3. Vender o apartamento.
Pois é, meus amigos. Isto não está só mau para quem compra mas também para quem vende. O apartamento até nos tem dado jeito pois é onde vamos almoçar (não é longe da empresa) mas está mais do que na hora de o despachar.

4. Poupar. Poupar. Poupar.
Nota-se que as minhas poupanças andam na rua da amargura? :D 

5. Destralhar.
Eu já ando neste processo mas ainda há coisas em caixotes que vieram do apartamento (e outras que ainda lá estão, socooorro) e a brincar, a brincar, já passou um ano. E senhores, como eu guardo coisas. Ora "isto que ainda me vai dar jeito", ora "aquilo por razões sentimentais", ora "estas 4587542 peças de roupa que ainda me poderão vir a servir quando eu voltar a pesar metade do que peso agora", ora "aqueloutro que eu sei lá bem se vai ser útil ou não". Arrrrggggh. E coisas da Mini-Tété? Tenho toda uma vida de 4 anos enfiada cá em casa, logo eu que não faço ideia se algum dia ganhamos coragem/vontade para ir a segundo filho. E enquanto uma pessoa não decide, guarda tudo que é para depois não ter despesa em coisas que deitou fora. Há-de vir a menopausa e eu ainda a guardar as coisinhas todas....

6. Acalmar. 
Os últimos anos mexeram muito connosco. A construção de uma casa, cheia de imprevistos, avanços e recuos, que demorou o quádruplo do tempo esperado, não foi fácil. Financeiramente não é fácil. Com um bebé (entretanto criança) à mistura. Algumas fases da vida mais complicadas. Nada de desgraças, graças a Deus, há que reconhecer e agradecer a saúde que todos temos, mas ainda assim não tem sido um mar de rosas e acho que "o estado constante de alerta" para eventuais chatices precisa de ser desligado. Preciso de olhar para o Jack e não pensar logo "Bolas, o que é que aconteceu agora?" ou não assumir que vem uma má notícia só porque ele está com um ar sério. Respirar fundo, aproveitar mais o que temos de bom sem receio que logo algo de chato aconteça a seguir. Deixar fluir. E até ando com vontade de começar a fazer ioga, imaginem.

7. Não me divorciar. :D
Ahah, não estamos perto disso mas eu digo e repito que nunca quis trabalhar com o Jack porque sinceramente sempre achei que ia dar mau resultado. Somos tão diferentes na maneira de trabalhar que eu sempre achei que ia haver discussões dia sim, dia não. Porque eu sou extremamente ansiosa, porque ele é uma drama queen quando lhe dá para isso, porque eu não tenho paciência para repetir a mesma pergunta ou resposta duas vezes, porque ele não ouve metade das coisas que lhe digo (estou a ser generosa, para aí 75% das coisas), porque eu simplesmente congelo e entro em negação em momentos de stress, porque vemos os horários de maneira diferente, porque somos teimosos quando achamos que temos razão (e ele nunca dá o braço a torcer), enfim, tudo para correr mal. Mas depois somos os dois surpreendentemente iguais na forma séria como encaramos o trabalho, como somos exigentes com o próprio trabalho, como nos protegemos e apoiamos um ao outro numa empresa exigente e stressante, como sentimos que estamos lá um para o outro quando os outros falham. Eu reconheço que trabalhar com ele foi a melhor maneira de ingressar no mercado de trabalho depois de tantos anos e ele diz que a segunda coisa que melhor fez na vida foi ter convencido a empresa a contratar-me (a primeira foi a Mini-Tété :P). Mas isto de trabalhar com quem se vive leva a que sejam 24h horas por dia a ver a mesma pessoa e isso tira um bocadinho da magia de regressar a casa, encontrar quem se deixou de manhã e contar o nosso dia. Corre-se o risco de levar os problemas de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Acho sinceramente que trabalhar juntos pode pôr um casamento mais à prova. Até agora temo-nos saído bem, espero que assim continue. 

8. Encontrar-me como mãe.
Pois é, ainda não estou a 100% neste papel de mãe trabalhadora. Adoro deixar a pequena na escola e ir trabalhar mas não gosto de o fazer quando a sinto cansada ou com ar de quem está a chocar qualquer coisa (antes ficava logo em casa a ver se não ficava pior e se não ia para a escola pôr outros miúdos doentes). Ainda estou a aprender a gerir o tempo entre as tarefas domésticas e o dar-lhe atenção. Agora pesquiso menos, leio menos e eu preciso de sentir que tenho conhecimento das coisas para sentir que sei o que fazer. Os 4 anos da Mini-Tété vieram com um feitiozinho que nem vos digo (quais terrible two ou terrible three, quais quê! Parece que tenho uma mini-adolescente em casa) e eu estou ainda a perceber como é que hei-de resolver isto sem sentir que estou a falhar nalguma coisa.

9. Comer melhor (e emagrecer).
Já estava a faltar, não era? Desejos de ano novo que sejam desejos de ano novo têm de ter o famoso "este ano é que é!" para o peso. Isto depois fica tudo igual, já se sabe, mas pronto, aqui fica ele para me relembrar que devia ter juízo.

10. Viver mais.
Tenho a sensação que nos últimos anos estive sempre à espera de qualquer coisa para poder viver. À espera que as obras começassem, à espera que a Mini-Tété nascesse, à espera que as obras acabassem, à espera que a Mini-Tété entrasse para a escola, à espera de começar a trabalhar, à espera de vender o apartamento, à espera de ver se regressamos a Portugal ou ficamos por aqui, à espera de maior folga financeira, à espera de decidir se um dia iremos a um segundo filho ou não, à espera, à espera, à espera...E vou vivendo mas acho que podia viver mais. Estou sempre naquela de que se calhar não vale a pena fazer isto ou aquilo porque depois talvez vá acontecer isto ou aqueloutro. Dar mais passeios a pé, ir andar de bicicleta, dançar mais, rir mais, ir conhecer terras aqui perto, aproveitar mais a terra onde vivemos, sentir mais que pertenço aqui, viver mais portanto. 

11. Melhorar o meu francês. 
Começo a semana a atropelar-me nas palavras depois de um fim-de-semana só a falar português e acabo a semana a enrolar as palavras porque estou cansada do esforço que fiz na semana toda para comunicar em francês. Eu nunca tive jeito para línguas, senhores, porque raio vim viver para aqui?

12. Saúde.
Haja saúde para todos nós. Depois do susto de 2012, eu só quero muita saúde para todos porque o resto arranja-se, com menor ou maior dificuldade.

Bom ano para todos!

29.12.19

2019 - Outra perspectiva das coisas

Como escrevi no último post, 2019 foi um ano de mudança. Nova casa, novo trabalho, novas rotinas...e sinto que houve também algumas mudanças na forma como vejo a vida e como a quero viver. Por exemplo, foi o ano em que passei a ver com outros olhos as redes sociais, o que, a par com a menor disponibilidade que o trabalho me trouxe, me levou também a ser menos activa no blogue, facebook e instagram. 

Em 2019 abandonei uma série de contas que seguia depois de ter passado por uma fase em que percebi que essas contas, embora me inspirassem em vários aspectos, me traziam também um sentimento de "se ela/ele consegue, porque razão não haveria eu de conseguir?" e uma consequente frustração por de facto não alcançar o mesmo objectivo. Uma das contas que seguia mostrava uma casa enorme irrepreensivelmente arrumada, limpa e decorada, e da qual tirei óptimas dicas de arrumação e decoração, mas cujo objectivo me parecia muito distante por haver uma empregada a tomar conta daquele serviço todo, ajuda essa que eu não tinha ao meu dispor. Até que a empregada se foi, a casa continuou linda e maravilhosa e começou a surgir o sentimento de "se ela consegue, porque é que eu não consigo?". Tempos depois, surgia a resposta pela autora que confidenciava que para manter a casa assim, se deitava à 1h ou 2h da manhã depois de todas as tarefas feitas. Acho que foi neste preciso momento que eu percebi que nunca estaria disposta a deitar-me tarde só para poder andar várias horas por dia a limpar a casa e que este pensamento se aplicava a uma série de contas que eu seguia. Como aqueles pais trabalhadores que parecem sempre ter muito mais tempo com os filhos do que eu mas que depois contam que para ser assim se deitam todos os dias às 3h da manhã para conseguirem manter o trabalho em dia. E aos poucos e poucos comecei olhar para as contas com outros olhos e a perceber que para ter ou fazer as mesmas coisas que aquelas pessoas então teria de fazer trocas que eu não estava disposta a fazer (ou não conseguia), como de repente perceber que se aquela pessoa fica no escritório até tarde então só vê os filhos mesmo antes de irem para cama, que aquele casal que se farta de viajar e passar fins-de-semana fora tem de deixar os filhos com alguém, que aquela mãe a tempo inteiro que vê séries, bebé chá e tem a casa imaculada na verdade não tem os filhos em casa como eu tinha, mas sim na escola todo o dia, que aquela mãe que treina para a maratona todos os  fins de tarde, está todos os dias menos horas com os filhos, que aquela mulher que faz pinturas e bricolages várias aproveita as semanas em que não tem a guarda da filha e esta está com o pai, que aquela mãe que despacha todas as tarefas domésticas antes do jantar é porque não vai ao parque com o filho e o pai ou não vai passear com ambos...Algumas contas deixei de seguir por sentir que já não tinha muito mais para aprender ou para me inspirar, outras continuo a seguir porque consigo perceber que são realidades diferentes da minha mas que ainda assim me conseguem dar uma ou outra ideia que eu consigo aplicar. E atenção, nada do que disse são modos de vida errados, são apenas modos de vida que eu não quero ou não consigo aplicar à minha vida. 

E quem fala de outras contas, fala também da minha própria conta. Depois de um ou outro mail, depois de um ou outro comentário, comecei a perceber que de alguma forma estaria pelos vistos a passar uma imagem de mãe zen, sempre calma, sempre a conseguir controlar o momento, com uma filha sem birras, sempre a saber o que fazer, que não bate, que não grita, que não ralha. O que não sou, nunca fui e não tenho qualquer intenção de ser. É incrível como, ao mostrarmos apenas uma parte das nossas vidas, influenciamos tantos a percepção que os outros têm de nós. Como um casal que conheço que chega a casa às 18h30, jantam às 19h e às 20h as crianças estão na cama. Com uma filha que o ano passado adormecia depois das 23h, isto parecia o paraíso até ter visto o outro lado: pais que chegam a casa às 18h30, fazem o jantar, jantam e deitam as crianças, sem que tenha havido tempo para brincadeiras ou tempo com os filhos. Resulta para eles mas eu não quereria este lado da moeda na minha vida.

Sinto que o facebook, o instragram, os blogs, o youtube conseguem ser extremamente úteis, dão-nos a conhecer outras realidades, outro mundo, outras opiniões, outras maneiras de ver as coisas, ensinam, mostram e podem realmente ser ferramentas bastante úteis se quisermos. Mas também acho que se corre o risco de observarmos mais a vida do outros do que vivermos mais a nossa realidade.

Mas esta análise das contas e das vidas dos outros também me trouxe bons ensinamentos e aprendi por exemplo que andava a organizar-me mal. Que por exemplo é preferível perder 30 minutos ao fim-de-semana a planear o que vou cozinhar em cada dia da semana e fazer as compras só para isso, do que estar todos os dias a pensar o que vou cozinhar e a tentar inventar pratos com o que tenho e o que não tenho no frigorífico ou na despensa. Que é mais fácil ter uma casa arrumada quando cada coisa tem o seu lugar porque é só pegar e colocar no sítio (objectos sem lugar, passeiam-se simplesmente e desarrumadamente pela casa). Que se arrumar a louça lavada quando faço o jantar é mais fácil e rápido arrumar a cozinha depois. E sobretudo, andava a organizar-me mal em termos de tempo: é óbvio que não terei o tempo livre daquela mãe que está em casa e tem as crianças na escola, ou daquele casal que tem empregada doméstica todos os dias que limpa, lava roupa e cozinha (que sonho! :P) mas há trocas, como acima dizia, que posso fazer e que estou disposta a fazer: menos tempo na internet e ler mais ou ver uma série, seguir menos séries e assim ler mais, organizar melhor o meu tempo para ter todos os dias 30 minutos ou 1h para um passatempo meu...

Sinto mesmo que no segundo semestre de 2019 comecei a aproveitar melhor o meu tempo. Acho que ainda há muita coisa que posso mudar e melhorar mas como disse sinto que virei uma página.

26.12.19

Adeuzinho 2019

E mais um ano que se acaba e que passou a correr. O ano de 2019 começou logo com a mudança para uma casa ainda em obras, com toda a adaptação e contratempos que isto acarreta. Lembro-me de na altura dizer que gostava de ter a casa acabada passado um ano, o que não vai acontecer, precisamos de mais tempo, maior folga financeira, alguma força de vontade. Depois de tantos anos com obras nesta casa, acho que este ano fomos fazendo as coisas de forma mais vagarosa, a tirar umas "férias" de tantos fins-de-semana de obras e pouco tempo pessoal. 
Além do mais, logo no início de Fevereiro comecei a trabalhar, o que foi também uma das maiores reviravoltas de 2019. Numa área completamente diferente da minha, começou por ser algo temporário e acabei por ficar na empresa. Deixei de ser mãe a tempo inteiro (parcialmente porque a Mini-Tété já ia à escola, já não estava 24h/dia comigo) para ser mãe trabalhadora e depois de tantos anos parada tive de me adaptar a este novo papel. A entrada nesta empresa também fez com que passasse a trabalhar com o Jack, coisa que sempre disse que não queria fazer. E como pela boca morre o peixe, não só estou a trabalhar com ele como a maior parte do tempo (semanas e semanas e semanas) somos só nós os dois enfiados numa sala sem mais contacto com os restantes funcionários. Acho que ainda não nos vomitamos um ao outro por sorte. :P

Estou curiosa para saber o que realizei ou não dos meus desejos para 2019 por isso vou já buscar a lista e vamos lá ver isso:

1. Recuperar elasticidade/flexibilidade.
É terrível dizer isto aos 34 anos mas nos últimos anos senti uma clara falta de flexibilidade, coisa que no último ano começou realmente a incomodar-me. Em coisas absolutamente simples, como estar no carro e rodar o pescoço e o tronco para ver pelo vidro traseiro e sentir uma certa tensão, como se estivesse perra. Ou esticar-me para alcançar qualquer coisa e sentir que os músculos não esticam tanto como esticavam. Por isso, a ver se faço alguns exercícios ao longo do ano, com calma, para alongar estes músculos e voltar a sentir-me melhor.
Aaaaa...mais ou menos. Os exercícios ficaram apenas pela teoria mas como passo agora imensas horas sentada ao computador apenas a mexer a ponta dos dedos, tenho o cuidado de me ir levantado e esticando as costas, mexer o pescoço, os ombros...

2. "Acabar" a casa.
Escrevo assim "acabar" entre aspas porque há planos para esta casa que não serão feitos este ano, sobretudo na parte exterior. Mas gostava de ter o interior feito e acabado quando chegasse ao fim deste ano. 
Pois. Não. De todo.

3. Apostar no lado profissional.
É preciso dar este passo, ainda não sei muito bem o quê porque os meus objectivos mudaram desde que vim para França, mas está na altura de descobrir.
Pronto, este realizei, assim meio que de repente e sem pensar muito no assunto, mas já trabalho.

4. Mini-Tété de volta ao horário escolar completo.
Agora que finalmente deixou de ver a escola como um bicho-papão, que entra de mão dada com uma amiguinha, que sai feliz, gostava de voltar a aumentar o horário. Preciso de tempo para mim, para os meus objectivos, para ser a Tété que não é apenas mãe. E para conseguir concretizar o ponto 3, preciso de facto que a Mini-Tété passe mais tempo na escola do que as 12h semanais que passa neste momento. E para que depois não haja uma mudança brusca, o melhor será aumentar aos poucos.
Pobre Mini-Tété que de um dia para o outro largou as 12h de escola semanais para passar a fazer não só o horário escolar completo mas ainda a ir para o ATL.

5. Ver mais filmes e séries.
Preciso de me sentar no sofá com o Jack, depois do jantar, com a Mini-Tété a dormir, e vermos filmes e séries, como tanto gostamos e como temos feito tão pouco.
Aaaaa.....pois, era bom, não era? Este era um bom objectivo se não tivéssemos uma filha que adormecesse tão tarde. O ano passado, a Mini-Tété adormecia depois das 23h, este ano depois das 22h. Com coisas da casa ainda por fazer depois de a pequena finalmente cair para o lado, não sobra propriamente tempo para filmes e séries. Mas começámos agora a ver a terceira temporada da Casa de Papel e eu mantenho a Anatomia de Grey em dia, o que não é mau. :P

6. Gerir-me melhor economicamente.
Acho sinceramente que sou uma pessoa poupada, que sabe organizar-se bem monetariamente, mas também consigo identificar perfeitamente as três vezes ao longo da vida em que me desnorteei com o dinheiro, em que a gestão não foi grande coisa, em que a cabeça não estava devidamente concentrada ou não havia condições para tal. E acho que em 2018 entrei (ou entrámos) numa fase dessas, por isso queria que em 2019 voltássemos a tomar devidamente as rédeas das nossas finanças.
Correu melhor que 2018, sem dúvida, mas sinto que em 2020 ainda posso melhorar.

7. Cozinhar pratos mais saudáveis.
Ando a sentir alguma necessidade de comer melhor, de aprender pratos novos e não fazer sempre os mesmos pratos e cometer sempre os mesmos erros.
Não, não sinto que tenha efectivamente cumprido este ponto.

8. Sair da gruta.
Sou um "bocadinho" anti-social, tenho as minhas pessoas e sinto que não preciso de acrescentar mais ninguém ao meu mundo. Mas agora a entrada da Mini-Tété na escola tem-me feito conhecer e contactar obrigatoriamente com outras pessoas e acho que devo realmente fazer o esforço de não me afastar.
O regresso ao mercado de trabalho afastou-me das pessoas que eu estava a começar a ver mas trouxe-me outras. Não são amigos, não são sequer visitas de casa mas permitem-me sociabilizar um bocadinho. 

9. Treinar o meu francês.
Que anda péssimo, ali pelas ruas da amargura, uma pessoa até tem vergonha de abrir a boca. Mas depois é "voluntária à força" nos jogos de sociedade semanais com os coleguinhas da Mini-Tété e é obrigada a falar não só com os adultos que ali estão como com as crianças ( e de modo a que estas me percebam e respeitem). E pronto, vai-se treinando assim, mesmo que depois tenha uma mãe simpática a perguntar-me se sou alemã dado o meu forte sotaque (e a minha aparência claramente pouco latina).
Esta é difícil avaliar. Por um lado, estando a trabalhar sou obrigada a falar francês com outros funcionários, leio mails todos os dias em francês e escrevo até alguns, pelo que posso dizer que vou treinando. Por outro lado, dado o estado de quase reclusão a que eu e o Jack estamos sujeitos no gabinete, sem mais ninguém, é óbvio que comunico com ele em português a maior parte do tempo.

10. Perder peso.
Este desejo tem lugar cativo na minha ordem de desejos todos os anos, paga as suas quotas a tempo e horas e é um desejo fofinho que me incomoda pouco durante o ano e que só aparece no fim para me relembrar que mais uma vez não o cumpri. Mas este ano dava mesmo jeito, até porque melhoraria uma pequena questão de saúde.
Mais uma moeda, mas uma voltinha. Posso dizer que "para o ano é que é!"?

11. Continuar a destralhar.
Nesta casa temos mais arrumação, mas ainda assim sinto que tenho coisas a mais (tipo roupas que já não uso há tantos anos que nem me lembro da última vez que a vesti) e desnecessárias. Ainda ontem fiz uma boa limpeza ao meu armário e tenho ali um monte de roupa para dar mas acho que brevemente ainda vou dar uma segunda volta. A verdade é que quando nos mudámos, fiz uma mala para 7 dias para não andar à procura de roupa em caixotes e outras malas, e tenho-me aguentado basicamente com essa mala (vou lavando e usando, claro), o que prova que não preciso claramente de tooooda a roupa que estava empacotada.
Está a ser um processo. Lento, demasiado lento, mas um processo. Acho que das minhas coisas até me vou desapegando mas a casa está saturada de coisas da Mini-Tété dos seus 4 anos de vida porque sei lá se um dia não decido ter um segundo filho e elas não me vão fazer falta. Acho que corro o sério risco de ser como a minha cunhada, já com os dois filhos maiores de idade, e ainda com os brinquedos de bebés deles guardados, a ocupar espaço. 

12. Saúde. Muita saúde.
Eu continuo a aguardar pacientemente que a Mini-Tété comece a trazer as maleitas escolares (é que não é que elas não andem por lá, a turma já esteve reduzida a metade à conta das gastroenterites, bronquites e maravilhas destas) mas a pequena lá vai passando ilesa. Estou convencida que quando se fartar, vão ser umas atrás das outras, e eu que me lixe a tentar gerir isso. Mas enquanto isso, muita saúde para ela, para nós, para a família e para todos.
Temos definitivamente sorte com a saúde da nossa pequenina. Tem imenso jeito para apanhar viroses de 3 dias que a põem com febre acima de 40°C que não desce nem com medicação mas depois fora isso continua alegremente a passar ao lado das maleitas escolares. Ainda antes do Natal várias crianças da turma apanharam o vírus mãos-pés-e-boca, uma das melhores amigas da Mini-Tété apanhou, a nossa vizinha também apanhou, e para já, não há sinal disso. Mas tem uma otite, pronto, que é para não se ficar a rir. O Jack também apanhou no início do ano uma infecção pulmonar para aprender que há coisas que não se curam sozinhas e que a sua querida mulher tinha toda a razão ao insistir com ele para ir ao médico. Mas fora isso, não houve problemas de maior nem cá por casa nem no resto da família.

Acho sinceramente que 2019 foi um ano de mudança, não tantas como as que queríamos, mas uma página foi virada. Falarei disto e dos meus desejos para 2020 num próximo post.

8.9.19

Sesta na escola - sim ou não?

Tracey Hocking

Andei irritada este Verão. A Mini-Tété iniciou a semana passada o segundo ano do ensino pré-escolar (jardim de infância) e a antiga directora da escola tinha-nos dito que já não haveria sesta e que esta seria substituída por um momento de repouso no qual as crianças pousariam a cabeça nos braços por cima das mesas. E eu fiquei chateada. A Mini-Tété ainda dormia a sesta na altura e eu não estava a ver o cenário a mudar nos dois meses seguintes pelo que a ideia de não haver sesta na escola estava a ficar-me atravessada. Comecei a pesquisar, li fóruns franceses, li a opinião de outras mães, li a opinião de educadoras e mais irritada ficava. Logo para começar porque a principal justificação que encontrava para a supressão da sesta era começar a habituar as crianças ao ritmo da escola primária, onde já não se faz sesta. Escola primária essa onde a Mini-Tété vai entrar daqui a 2 anos. Ora sendo que a crianças mudam imenso em dois e ainda haverá o próximo ano para fazer esta habituação, esta justificação parece-me simplesmente uma treta. Até porque com 3-4 anos ainda é normal que muitas crianças precisem de fazer a sesta por isso para quê estar a exigir que a deixem de fazer?

Comecei a perceber que dependia muito das escolas. Nalgumas a sesta é simplesmente trocada pelo momento de repouso em cima das mesas, noutras permitem que as crianças façam sesta até pelo menos fazerem 4 anos, noutras permitem que as crianças façam sesta até às primeiras férias (em Outubro), noutras permitem que a façam até às férias de Natal, noutras a sesta é feita na primeira semana, avaliam e a partir daí permitem que aqueles que não a fazem fiquem a brincar e aqueles que ainda adormecem possam ir descansar. E eu ficava irritada. Queria que a Mini-Tété fizesse a sesta, não a queria a dormir em cima de braços cruzados em cima de uma mesa, queria ter uma filha a gostar da escola e não a odiá-la por a deixar exausta (sendo que o ano passado, tanto a educadora como o ATL tinham sido unânimes em afirmar que os dias na escola - com sesta! - eram demasiado compridos e exigentes para a personalidade da Mini-Tété e que ela ficava extremamente cansada), queria uma filha capaz de conversar, brincar e jantar quando a fosse buscar e não um pequeno ser, cheio de sono, resmungão, birrento e a querer simplesmente ir para a cama. Oh, como este assunto me irritava.

Na última semana de férias começámos a preparar a Mini-Tété para a eventualidade de realmente não haver sesta na escola (a directora ia mudar, eu ainda tinha uma pequena esperança), reduzindo a mesma para apenas uma hora (e Deus sabe como era difícil acordá-la ao fim desse tempo) e eu começava a preparar-me para ter uma conversa com a educadora no final da primeira semana, de forma a que juntas chegássemos a entendimento, pretendendo explicar-lhe como ficava a Mini-Tété sem sesta e perguntar-lhe como é que aos 3-4 anos os objectivos escolares podem ser mais importantes que a sesta e consequente falta dela quando ainda é tão precisa. Eu sei, eu sei, que há crianças que com esta idade já não fazem sesta e por isso até posso concordar que em casos destes ou daqueles em que a criança já só faz sestas de 10 minutos, esta supressão faça sentido. Mas a verdade é que ainda há quem precise (até eu gosto de fazer uma sestinha de vez em quando...).

No primeiro dia, preparei-me para ir buscar uma Mini-Tété apática, sem paciência, resmungona e infeliz. Mas apareceu-me uma criança bem-disposta, a saltar e feliz. Pergunta imediata: "Fizeste a sesta?". "Sim!", "Na mesa?", "Não, mamã, nuns tapetes vermelhos!". Ufa, que peso que me saiu de cima. Faltava agora saber quanto tempo teria ela direito a isto. Na sexta, tivemos a reunião com a educadora que nos explicou que embora já não tivessem acesso ao dormitório, as crianças repousavam deitadas na sala ao som de música suave. Algumas poderiam dormir, outras não mas que surpreendentemente todas as crianças deste ano adormeciam (e como alguns pais ficaram espantados uma vez que em casa os filhos já não dormem). A medo perguntei até quando poderiam fazer a sesta. "Todo o ano! Se precisam de dormir, então dormem!". E eu venho mais leve, mais contente, menos irritada. Porque me chateia solenemente esta pressa de fazer as crianças crescerem e saltarem etapas, de não se respeitar o ritmo a que têm direito, de lhes mexer com algo tão básico como a necessidade de descansar. E por aí, o que pensam disto?

28.7.19

Adaptação à escola - dica

Quando comecei a trabalhar, houve quem me pedisse para depois contar como tinha sido a adaptação da Mini-Tété e eu prometi escrever aqui quando tivesse oportunidade.
Não foi, mais uma vez, uma adaptação fácil: a Mini-Tété estava com um horário bastante reduzido (12h semanais: 4 manhãs de 3 horas) e de repente, pumba, estava na escola todo o dia com ATL logo a seguir. Pior, como ficou logo doente e proibida de ir à escola, quando finalmente teve autorização para voltar estava em pleno período de férias e passou logo a ir todo o dia para o ATL, onde nunca tinha estado. Pobre Mini-Tété, tão avessa a mudanças e sempre a apanhar com elas assim em grande.
Portanto, a adaptação à escola que até estava a começar a correr bem, deu mil passos para atrás e numa terça-feira em que ela esteve a chorar 2h ao nosso colo depois de a termos ido buscar, percebi que ou fazia alguma coisa ou a minha pequenina não ia ultrapassar este sofrimento rapidamente.

Uma das coisas a fazer e que demorou o seu tempo foi explicar a nova rotina à Mini-Tété, explicar que eu ia sempre buscá-la à mesma hora (sendo que tendo 3 anos ela não sabe ver as horas por isso tinha de usar a rotina do ATL para lhe explicar em momento daquela rotina é que a ia buscar) e fazê-la ganhar a confiança de que eu iria mesmo sempre. Neste momento, já me posso dar ao "luxo" de às vezes poder chegar 15 minutos mais tarde sem que ela perceba, mas na altura fiz mesmo o esforço de todos os dias estar lá à mesma hora.  Demorou mas aos poucos a Mini-Tété percebeu mesmo que eu ia sempre buscá-la (o medo que ela tinha de passar a noite na escola era terrível) e se agora até já se permite a brincar sem estar preocupada, durante muito tempo dei com ela sentada no chão à porta do ATL à minha espera por saber que era mais ou menos naquela altura que eu deveria aparecer. Ai, coração de mãe apertadinho.

Outro truque que pus em marcha naquele dia e que teve logo efeito imediato foi desenhar um calendário semanal, onde em cada dia estava desenhado o que iria acontecer (se era dia de escola + ATL, se era apenas dia de ATL, se era fim-de-semana...) e coloquei-o na porta do frigorífico. Todos os dias de manhã, a Mini-Tété avançava um íman para o dia correcto e via o que iria acontecer nesse dia. Foi desta forma que percebeu que só havia um dia completo de ATL (o que ela menos gostava) por semana e que após 5 dias de escola vinha sempre o fim-de-semana em que passava o dia com os pais. Uso também para os dias de férias (em que vai ao ATL, ou vai para casa de uns avós, ou fica com outros, ou vai apanhar o avião...) e usarei sem dúvida no próximo ano lectivo. Fica a dica. :)




11.7.19

As mães só se queixam?

Volta e meia, surge nas caixas de comentários de alguns blogues (este inclusive) a conversa sobre se vale a pena ser mãe dado o cansaço e as queixas que existem. Surge sobretudo muitas vezes o argumento de que as mães só se queixam, só falam das noites mal dormidas, das crianças doentes, da desarrumação, de andarem cansadas, de não terem paciência, de lhes faltar tempo. Há até quem só conheça mães arrependidas da decisão que tomaram e que invejam a vida daqueles que sabiamente decidiram não ter filhos. Tive sempre alguma dificuldade em conseguir acreditar a 100% nestas histórias, não por achar pouco provável que uma mãe se queixe, mas por já não achar assim tão normal que todas as conversas sobre filhos sejam um rio de lamentos e arrependimentos.

Sempre achei que estava a ser dada demasiada importância às queixas das mães como se antes de sermos mães nunca nos queixássemos de nada e sem que isso significasse um arrependimento profundo das nossas decisões. Também tinha para mim que é daqueles assuntos que mais facilmente nos queixamos do que partilhamos o que há de bom (da mesma forma que acho mais provável uma amiga desabafar comigo várias vezes que o namorado ressona demasiado alto do que se sente ao meu lado todas as semanas e desfie todo um mar de elogios e nomes carinhosos que lhe chamou nos últimos anos).

Há uns dias, tive a confirmação disso mesmo quando ao chegar ao trabalho comentei com uma colega (sem filhos) o quão cansada estava porque a Mini-Tété tinha dado uma noite terrível. Levei como resposta "Meu Deus, tiveram mesmo azar, a vossa filha dorme mesmo mal!". Fiquei a pensar naquilo boqueaberta e sem perceber. A Mini-Tété é uma criança que sempre dormiu bem (adormece tarde mas depois é um sossego), fora uma ou outra fase (ou se está doente, como naquela noite), temos os dois perfeita noção disso e da sorte que temos, mas de alguma forma a pessoa com que trabalhamos tem uma ideia completamente oposta da realidade e uma vez que ela não conhece a Mini-Tété tivemos de ser nós a criar essa ideia. Não foi difícil perceber o porquê: nunca chegámos ao trabalho e comentámos a maravilhosa noite que a Mini-Tété nos deu, mesmo sendo estas noites uma larga maioria. Pelo contrário, só falamos das noites quando referimos que ela dormiu mal ou para, em brincadeira, contarmos as grandes conversas filosóficas que a Mini-Tété decide ter quando finalmente se deita (é a hora do dia em que decide que tem imensa coisa para partilhar e dizer ao mundo...). E acreditem que não foram muitas as vezes que nos queixámos mas dado a ausência de lado bom, a pequena amostra do lado mau levou a que se criasse uma ideia muito mais negativa que a realidade. E imagino que se isto foi assim para o sono, também o será para outros assuntos em que a nossa filha vem à baila. Porque se há histórias divertidas para contar ou pequenos episódios de terror para partilhar, a verdade é que simplesmente nunca embarquei em conversas em que apenas a elogiasse ou dissesse tudo o que de bom ela faz e nos traz (e não é por ser mãe, acho mesmo que há série de assuntos fora da maternidade onde fazemos exactamente  o mesmo. Eu só falo do meu carro se for para contar algo de chato que aconteceu - pneu furado, barulho esquisito, falta de gasolina - nunca começo uma conversa para elogiar o carro em que me desloco...).

É engraçado como tantas vezes se ouvem e lêem queixas sobre como muitas vezes só é partilhado o lado cor-de-rosa da maternidade (em blogues, entrevistas, vídeos no youtube) mas depois na prática temos o oposto e as consequências da partilha apenas do lado menos bom.








6.7.19

O primeiro ano de escola já acabou...

Cá estou eu novamente. :) O blogue anda completamente ao abandono, é uma pequena desgraça, penso nisto todos os dias mas para ser sincera, acabo por encolher os ombros pois sei que embora tenha muita coisa para escrever aqui, simplesmente não tenho tempo. Poderia dizer que quem quer mesmo arranja tempo e eu até concordo com isto, acho que quando queremos verdadeiramente algo poderemos conseguir mas temos na grande maioria das vezes de abdicar de outras coisas. E eu sei que para escrever aqui teria de abdicar de tempo com a Mini-Tété (não quero) ou de horas de sono (o que não me faz sentido). Por isso, é mesmo assumir que neste momento da minha vida não dá mesmo para escrever aqui com a regularidade que (tanto) gostaria e que uma dia poderei voltar em força. :)

A Mini-Tété acabou ontem o seu primeiro ano de (pré-)escola. Andei a sentir-me estranha todo o dia, talvez estivesse apenas cansada, talvez fosse do calor ou talvez fosse por não estar a conseguir processar a informação de que o ano tinha acabado, que já tem o seu primeiro ano de escolaridade feito, que conseguimos mesmo superar tudo isto. Não foi um ano nada fácil, nunca imaginei como iria ser difícil, como a personalidade da Mini-Tété iria dificultar tanto a sua integração, como um erro de comunicação logo no início condicionaria a adaptação e a arrastaria durante tantos meses. E houve uma mudança de casa pelo meio. E eu comecei a trabalhar. E a cada mudança, nova adaptação.

Gostei muito da escola, da educadora, das auxiliares. Todas as semanas recebia umas fotografias tiradas nessa semana com um pequeno texto descritivo sobre o que tinham andado a fazer e era giro mostrar à Mini-Tété e falar com ela sobre o que estava a fazer naquela fotografia ou na outra.
E estou ainda fascinada com tudo o que a Mini-Tété aprendeu este ano. A nível físico deu um salto enorme no desenvolvimento. É verdade que continua uma miúda calma e pouco dada a actividades físicas, muito cautelosa na maior parte dos passos que dá fora da sua zona de conforto, a própria educadora diz que nunca a viu correr e que acha que no fundo poucas serão as coisas que a motivarão a correr (tem razão, ahah. Mas nós já a vimos correr. Não corre muito nem muitas vezes, mas já corre :P) e que não adora as bicicletas a não ser que alguém pedale e ela vá sentada atrás sem fazer qualquer esforço (di-va, a minha filha é uma diva), mas nós já a vimos pedalar pela primeira vez um triciclo (esqueçam lá as bicicletas para já :P) quando fez 3 anos e meio. Também já sobe (trepa) melhor e acho-a mesmo mais desembaraçada. :)
Aprendeu a desenhar bonecos, casas, flores, corações, cruzes, bolas, o sol....Aprendeu a colorir, a fazer correspondências e sequências. Aprendeu a escrever o nome dela. E nós fizemos uma festa tão grande que acho que foi mesmo um momento de viragem naquela cabecinha e ela percebeu finalmente um dos propósitos da escola: aprender. O orgulho que sente ao aprender as letras trouxe-lhe finalmente o lado bom da escola e ajudou muito a ir para a escola mais contente. Também aprendeu a contar e a associar os números às quantidades. E músicas, tantas músicas que ela aprendeu este ano (e nós por acréscimo porque à força de ouvir cada uma 42486452 vezes não há quem não decore qualquer coisa).

De resto, a nossa pequenina é ainda um botão de flor a abrir devagarinho. Tanto a escola como o ATL são consensuais: os dias são demasiado longos para ela (Mini-Tété surpreendia tudo e todos com a velocidade a que adormecia na sesta...), muito cansativos e a energia das outras crianças é demasiada para ela. Para já, prefere o sossego de estar ao pé dos adultos, protegida das correrias, encontrões, brincadeiras e gritos dos colegas. Mas aos poucos está a mudar e a educadora acredita que para o ano já esteja mais habituada e tudo lhe faça menos confusão e cansaço. Não me admira, sei a criança que tenho em casa e divirto-me até a vê-la a brincar com outras crianças porque se alguma lhe diz "Anda, vamos correr", a Mini-Tété dá dois passos e diz alegremente "Olha, uma cadeira! Vamos sentar-nos!", ahahahaha. 

A nível da língua, está uma francesinha de primeira. Aprendeu muito rapidamente e tem orgulho em falar duas línguas. Se em casa é uma verdadeira tagarela, na escola é mais calada (sai tanto à mãe...) mas logo nos primeiros meses a educadora fez questão de me mostrar como ela já lhe respondia em francês sem problemas. Agora quem se lixa sou eu pois não percebo metade do que ela diz simplesmente porque não conheço as palavras. Li-xa-da!

Enquanto não trabalhei, ia todas as semanas fazer jogos de grupo à escola. Não adoooorei a actividade porque se para a minha filha tenho a maior das paciências, o mesmo não se pode dizer quanto às crianças dos outros. Sobretudo porque com o meu parco francês e sendo a grande maioria dos jogos com o objectivo de estimular o vocabulário das crianças, eu às vezes via-me e desejava-me para ser bem sucedida. Por outro lado, deu-me a oportunidade de estar mais por dentro da escola, observar a dinâmica da mesma, ver os coleguinhas da Mini-Tété, ver como se relacionavam, conhecê-los melhor, conhecer algumas mães e conversar mais facilmente com a educadora.

É mesmo incrível como é que este ano passou assim tão depressa, como é que tanta coisa aconteceu, como é que tanta coisa mudou. Não foi um ano fácil mas gosto mesmo de ter a Mini-Tété naquela escola e só espero que ela tenha tanta sorte com a próxima educadora como teve com esta. :)