Tenho uma amiga grávida a quem tenho feito o esforço de não estar sempre a fazer perguntas nem a encher de informação.
A primeira razão é porque de facto não quero ser chata e tenho a certeza que ela tem outras pessoas na vida dela para lhe darem mais de mil conselhos.
A segunda razão é que não sou nenhum guru da maternidade e metade dos conselhos que eu poderia dar provavelmente não resultarão com ela e com o bebé dela. Tal como cada pessoa tem a sua vida, também cada pessoa tem a sua experiência da maternidade, não só porque somos pessoas diferentes mas também porque os bebés o são. Há uns tempos falava do lado mais negro da maternidade com uma amiga que tem duas filhas (beijinho, S!) e a certa altura dei por mim a pensar que estava para ali a falar mas no fundo que sabia eu da realidade desta minha amiga? Eu só tenho uma filha, não faço a mais pequena ideia do que é ter duas, do que é ter de gerir a chegada de um bebé a uma casa onde até há pouco só havia uma criança, do que é dividir atenção entre as duas, adaptar rotinas para que nenhuma saia lesada...Aliás, temos as duas experiências absolutamente opostas: ela é mãe trabalhadora com 2 crianças e eu sou mãe a tempo inteiro de apenas uma. Haverá conselhos que nos ajudarão mutuamente mas outros aplicar-se-ão apenas a uma das realidades não funcionando de todo com a outra.
A terceira razão para não andar a chatear a amiga grávida é que sinto que há coisas que por muitos que nos avisem antes, só saberemos como é quando lá estivermos, quando passarmos por isso. Por muitos pormenores que nos dêem, vamos sempre imaginar que vai ser uma coisa e a realidade será outra.
Mas depois penso que a devia avisar de certas coisas, sim, que é para isso que servem as amigas e eu não sei se alguém lhe diz estas coisas e fico ali no limbo de falar ou não. Que se calhar devia dizer-lhe que a seguir ao parto é mais do que normal não sentir um amor arrebatador pelo bebé que nasceu, que isso não faz de nós más mães, que é normal gostarmos ou preocuparmo-nos apenas com ele e que só isso já é bom. Também lhe devia dizer que a amamentação pode não correr logo bem à primeira e que se ela quiser mesmo amamentar (porque é o melhor para o bebé) tem todo o direito de pedir ajuda até conseguir que tudo corra bem. Mas também lhe devia dizer que não é má mãe se por acaso tiver de dar leite adaptado. Porque no fundo, o que o bebé precisa é que a mãe o alimente, seja de que maneira for. E devia também dizer-lhe que a descarga hormonal a seguir ao parto, os babyblues e a depressão pos-parto existem, não são coisa de mães fracas e que se sentir que algo não está bem, que fale, que peça ajuda. Que é normal que a racionalidade e lógica que se tem antes do parto sejam um bocado afectadas após este pois de repente temos ali um ser, cheio de necessidades, com médicos e enfermeiras a darem-nos várias informações, a ter de gerir visitas, e a tentar equilibrar tudo isto enquanto se recupera de um parto. É um pouco como se agora dessem a qualquer um de nós uma girafa e dissessem "Vá, toma conta dela, não deixes que lhe falte nada, tens isto, isto e isto que deves fazer, e evita aquilo e aquilo, e agora toma lá um grupo de várias pessoas para olharem para a girafa e falar contigo enquanto tentas aprender num par de horas tudo o que precisas de saber para cuidar dela". É muito para gerir, certo? E devia também dizer-lhe que tooooda a gente sabe que os bebés comunicam pelo choro mas que é muito difícil imaginar até que ponto este consegue ser stressante. Sobretudo se durar horas. Sobretudo se a única coisa que queres fazer é dormir porque sempre que piscas os olhos sentes que adormeces durante aquele nano-segundo. E avisá-la também que vai sentir a paciência fugir, que pode pensar onde é que tinha a cabeça quando se lembrou de engravidar, que não vai conseguir aguentar isto nem mais uma noite quando mais umas semanas ou meses. Que vai querer chorar e que o deve fazer se isso ajudar a depois respirar fundo, ganhar força e continuar a lidar com aquele pequeno ser que parece berrar sem razão.
Dizer-lhe que aquilo a que muitas mães chamam de cólicas e que surgem ao final do dia é a maior parte das vezes o bebé a descompensar, a libertar todos os estímulos do dia e que isso leva ao choro. Afinal ele saiu de um sítio escuro e calmo para este mundo tão confuso. É como se agora nos colocassem a nós num país onde se fala pelo menos 7 línguas diferentes, das quais nenhuma nos é familiar e nos dissessem para irmos à vidinha, trabalhar normalmente, tratar de assuntos, apanhar transportes...O stress seria tal que muito provavelmente também choraríamos ao final do dia. E devia dizer-lhe para tapar os ouvidos e fazer "lá-lá-lá" (ou ignorar simplesmente) sempre que alguém lhe disser que o colo vicia e que o bebé está demasiado apegado à mãe. É uma crueldade alguém tentar fazer com que uma mãe pense que o seu filho de 1 mês, 2 meses deveria passar mais tempo sentado algures que no colo dos pais e que deveria ser mais apegado ao padeiro do que à mãe. Que dê colo, que cheire, que mime. Por todo o lado se ouvem vozes em como a amamentação ajuda a criar o vínculo entre mãe e filho, mas tê-lo ao colo sem a mama na boca é que não! Eles precisam do calor dos pais, do cheiro dos pais, da pele dos pais, seja a mamar ou não. Devia dizer-lhe que a privação de sono é terrível e que aquele conselho de "dorme quando o bebé dorme" deve ser seguido à risca. Não somos super-mães, somos a mãe daquele bebé e ele precisa que estejamos funcionais. Devia dizer-lhe que é fácil para muitos casais cair no erro de "o pai trabalha e está cansado quando chega a casa". Pois claro que está mas a mãe também. E juntos fizeram o filho por isso há que partilhar, entregar o bebé e ir dormir, tomar banho, sair meia-hora. E se for preciso acordar a meio da noite, entregar o bebé aos gritos e dizer "Já venho, preciso de 2 minutos para respirar fundo".
E dizer-lhe sobretudo que tudo são fases. O bebé não será recém-nascido durante muito tempo, que depois o choro deixa de ser sempre em modo histeria porque ele passa a confiar nos pais e a perceber que se chorar mais baixinho os pais dão-lhe de comer/mudam a fralda/embalam na mesma. E que não o vão deixar para trás, sozinho e indefeso. Dizer-lhe que aprendemos com eles e eles connosco e que é preciso os primeiros tempos de confusão para chegar a esse ponto. E que tudo melhora.
Mas se calhar o melhor é ficar caladinha porque esta foi a minha realidade na maior parte dos pontos e a dela pode ser completamente diferente. E todos estes conselhos não servirão para nada. Ou até pode vir a ser igual mas não interessa dizer-lhe isto agora porque ela só saberá como é quando tiver o bebé nos braços. Por isso, fica aqui para quando e se um dia lhe apetecer ler. E para que saiba que estou aqui, com toda a minha experiência e realidade, para a ajudar e/ou ouvir mesmo que a experiência e realidade dela sejam diferentes.
Autora do cartoon: https://www.facebook.com/A-minha-vida-dava-um-cartoon-292543747583198/