Se eu pudesse comunicar por pensamento com a futura educadora da Mini-Tété, dir-lhe-ia que a Mini-Tété vai chorar, é normal que chore, esteve quase 3 anos comigo em casa, o mundo dela sou eu e das poucas vezes que a deixei com outras pessoas, eram pessoas da minha confiança e que ela já conhecia bem (avós, sobretudo). Por isso, vai chorar porque a vou deixar com estranhos, numa sala cheia de crianças a precisar de atenção, que fazem barulho e choram também. Dir-lhe-ia que a maneira mais rápida de fazer a Mini-Tété parar de chorar é assoá-la. O choro entope-lhe o nariz e o desconforto que isso causa fá-la chorar mais. Por isso, assoando-a resolve-se logo um problema e traz-lhe a certeza de que o resto também se resolverá, o que diminui ou acaba com o choro.
Dir-lhe-ia que a Mini-Tété não vai falar. O pai pouco falava na escola e a mãe durante anos ouviu dos professores que deveria participar mais nas aulas. Os pais são tímidos e calados por natureza (a não ser com amigos e muito à-vontade) por isso a Mini-Tété tem a quem sair. Não vai falar porque não conhece ninguém e porque não vai confiar. Não vai falar porque vai perceber que os meninos e a educadora falam uma língua que não é aquela que ela mais ouve e que não vai ter lá a mãe para traduzir aquilo que ela não percebe logo. É dar-lhe tempo. Ela aprende palavras muito facilmente e rápida e timidamente começará a dizer o que quer.
Dir-lhe-ia que com a Mini-Tété o que resulta é explicar-lhe as coisas. Não vale a pena tirar-lhe alguma coisa das mãos ou obrigá-la a sentar-se ou a ir seja para onde for. Ela vai chorar porque não vai compreender porque a estão a tratar assim. Se lhe pedirem e explicarem, ela dá e ela vai. Talvez tenha sido falha nossa, sempre explicámos, não a habituámos a cumprir "só porque sim" e não compreende que às vezes tem mesmo de ser assim e pronto.
Dir-lhe-ia que não quero que a obriguem a comer nada. Sou contra isso. E que me revolta o estômago só de pensar que alguém o pode fazer. Ela come quando tem fome, ponto. E se não quiser almoçar, não almoça. Terá fome mais tarde? Provavelmente, mas é assim que aprenderá que para não a ter, o melhor é almoçar. E não quero que gritem com ela. Nós não o fazemos, não se grita em nossa casa por muito que nos falte a paciência, e ela vai ter medo. Não há razão para gritarem porque não é assim que ela vai compreender.
Dir-lhe-ia que ela vai chorar de cansaço. A Mini-Tété teve os seus próprios horários até agora e as manhã não costumam ser tão longas como serão na escola. E por isso ela terá sono ao final da manhã pois estará mais horas acordada do que está habituada. E é capaz de chorar por só querer dormir. E não vai comer porque o sono não lhe permite. Depois habitua-se mas nos primeiros tempos é capaz de haver muito choro, pouca fome e muito sono.
Dir-lhe-ia que é um doce de menina, calma, sossegada, que gosta muito de aprender, gosta de regras, gosta de saber que faz bem as coisas. Dir-lhe-ia que é como a mãe, que não é muito de contacto humano, que dificilmente aceitará dar a mão a outra criança a não ser lhe expliquem que é preciso, e que é capaz de negar abraços e beijos. Dir-lhe-ia que não quero que lhe façam mal, que estejam atentos, que ela ainda não sabe que tem de se defender porque nunca precisou de o fazer, que não compreenderá que as outras crianças a empurrem ou lhe tirem as coisas. Ela vai aprender, que remédio, tem de ser, mas é preciso dar-lhe tempo para isso e não deixar que abusem com ela.
Dir-lhe-ia que nem por um segundo me arrependo de a pôr na escola porque sinto que é uma das melhores coisas que lhe posso dar: o acesso à educação. E que por isso espero que todos façam o seu papel para que ela possa usufruir feliz e bem deste direito.
E por fim, dir-lhe-ia que têm ali, várias horas por dia, o meu coração. E como não consigo viver sem este orgão vital, só quero que o tratem bem. Eu só a quero feliz. Não peço mais nada.

