26.9.18

Vou participar num concurso do IKEA!

O Ikea faz 75 anos e em França lançou um concurso cujo prémio é bastante tentador: 75 participantes vão ganhar, cada um, 750 euros para gastar em compras nesta loja. Ora os meus olhinhos brilharam como duas estrelas quando vi o anúncio a aparecer no site em Agosto, já com uma lista mental de coisas que tenho de comprar para a casa nova a percorrer-me o cérebro, e fui logo ver em que consistia o concurso. No fundo, o que é proposto é que a cada pessoa pegue numa peça IKEA e personalize a sua superfície. O concurso acaba já para a semana e eu ando aqui às voltas com uma peça que, caso eu seja uma das vencedoras, prometo mostrar por aqui. 

Contudo o concurso tem regras e é aqui que se nota como o ser humano não tem a menor das paciências para ler mais do que duas linhas de texto, quanto mais uma série de páginas sobre um concurso. As fotografias das peças personalizadas são submetidas na página francesa do facebook do IKEA e tem sido possível ir vendo o trabalho dos outros concorrentes. E digo-vos que há ali verdadeiros bons trabalhos, daqueles que me dão vontade de copiar com as peças originais que já habitam cá por casa. Outros não estão assim grande coisa, há que dizê-lo, e depois há outros que se nota que simplesmente não leram as regras. Isto porque há uma lista de materiais proibidos a usar no concurso (por exemplo, velas, louça, produtos para animais) e o objectivo é realmente alterar apenas e só a superfície, não podendo a peça ser furada ou sua função ser alterada. E lá está, há ali trabalhos verdadeiramente engraçados e originais que se arriscam a ser desclassificados quando bastaria não ter feito algum passo ou terem escolhido outra peça para poderem ser possíveis vencedores. Eu acho isto estranhíssimo, admito. Para quê entrar num concurso sem ver as regras primeiro? Para quê ter trabalho para depois ser desclassificado por não saber as regras?



 Eu estou num limbo: por um lado acho que a minha peça é gira e pode ser uma das vencedoras, até porque serão 75 vencedores e não apenas um, o que aumenta as minhas hipóteses de ganhar um dos prémios; por outro estão a aparecer peças interessantes e o júri pode olhar para a minha e não a achar nada de mais. Vamos ver, vamos arriscar e esperar ganhar! 


24.9.18

[Avulso]

A Mini-Tété começa a dizer frases em francês, repetindo basicamente o que ouve a educadora e a auxiliar dizerem na escola, o que tem a parte engraçada de percebermos como lhe falam e o que lhe dizem.

Também tem brincado muito "à escola" com os bonecos dela ou connosco. Gosta de fazer o papel de educadora, confortando os bonecos quando choram por quererem o papá e a mamã, explicando que agora vão comer, que têm de dormir a sesta, que os papás vêm a caminho, que têm mesmo de provar a comida, que têm de se sentar, que vão ouvir uma história...É bom, porque de uma forma muito geral a Mini-Tété quando brinca "de mãezinha" trata os seus bonecos como nós a tratamos a ela, pelo que acredito que quando faz o papel de educadora, replica também o papel da educadora que conhece, por isso vê-la a ser gentil mas firme com os bonecos transmite-nos algum sossego.

Adaptou-se muito bem aos horários da escola. Eu é que ainda não. Passei os últimos 3 anos com uma bebé dorminhoca que acordava por volta das 9h-10h na maioria dos casos (às 8h em raros momentos e às 11h-12h nalgumas fases), por isso agora custa-me à quarta-feira e ao fim-de-semana tê-la a acordar às 7h da manhã (se não for antes, conforme lhe dê a fome ou não). Os dias são mais compridos, o que agora com o tempo a começar a ficar manhoso e de chuva, não dá jeito nenhum. Sinceramente, sou melhor mãe quando está bom tempo e posso andar a passear com ela. Adoro ficar em casa tipo bicho da gruta mas não com uma miúda de 2 anos.

Falta pouco mais de uma semana para os meus anos! Vão-se embora os 33 e chegam os 34!

Sou menina da cidade, não vale a pena, gosto de ter tudo mais à mão e não ter de fazer mais de 40 minutos de estrada só para ir ao cinema ou a um centro comercial. Não gosto dos 1547854 bichos que me entram em casa cada vez que abro uma janela e tremo só de pensar que vou para uma casinha ainda mais no campo que esta. Mas não haja dúvida que consigo apreciar sair de casa e em vez de enfrentar o trânsito e ver filas de prédios, passar por campos cheios de cavalos lindíssimos, mais à frente as vacas malhadas pretas e brancas e mais ao longe as vacas Charolaise, típicas deste país. Ou campos intermináveis de flores amarelas ou de milho. O Jack já por uma ou outra vez viu uma corsa ao pé da nossa futura casa. E sem falar dos javalis e raposas, embora estes me provoquem mais stress porque atravessam as estradas sem qualquer pré-aviso.

Eu juro que não me meto na reconstrução de outra casa tão cedo. Acho que quase tudo o que podia ter corrido mal com esta casa, correu e é o atraso e os anos de vida perdidos que se vê. Está a ficar uma casinha de bonecas muito jeitosa, cumpre-se o sonho do Jack de ter uma casa (eu sou mais de apartamento) mas eu já esgotei todos os sacos de paciência que a vida me deu para as obras. Mudamo-nos este ano (sim, eu já nem faço previsão de em que mês para não haver cá falsas expectativas :P) e não me meto noutra tão cedo e é se alguma vez aceitar novamente tal aventura.

O meu vizinho (A Besta) anda doente. Com alguma infecção pulmonar ou lá o que quer que seja, que o faz tossir todo o santo dia e toda a santa noite como se quisesse que lhe saltassem os dois pulmões do corpo. Não que isto o impeça de passar o tempo todo a falar ao telemóvel a um nível sonoro que se ouça ao fundo da rua. Eu não sei com quem é que ele fala mas são pessoas com muita paciência para o ouvirem tantas horas seguidas. Ou então não, pousam o telefone e deixam-no a falar sozinho, não sei.



19.9.18

Dúvidas capilares

Comecei a ter cabelos brancos muito cedo e até hoje pouco ou nada me incomodaram. Estavam lá, faziam parte de mim, a minha mãe e a minha tia também os tinham começado a ter muito cedo, estavam sobretudo concentrados em finas madeixas à frente e eu até lhes achava (e ainda acho) uma certa piada quando tenho o cabelo bem penteadinho. Mas nos últimos anos, sobretudo depois do nascimento da Mini-Tété (em que sinto que toda eu envelheci imenso nestes 3 anos), os cabelos brancos decidiram também eles reproduzirem-se e aumentaram consideravelmente em número, e não apenas à frente mas começaram também a espalhar-se por toda a cabeça. E eu estou a começar a achar-lhes menos piada. Lá está, quando estico o cabelo, acho-lhes alguma graça mas como é não é esse o meu penteado do dia a dia, mas sim uma mistura de caracóis e ondas em modo selvagem, os cabelos brancos começam realmente a parecer-me passar uma imagem mais envelhecida e até de algum desleixo (não que seja desleixo ter cabelos brancos e não pintar, mas quando estes dão mau ar ao cabelo, dá a ideia que não estamos a cuidar bem desta parte de nós).

A solução parece então passar por pintar o cabelo. Já o faço, quando há ocasiões mais especiais (casamento, baptizado) ou simplesmente porque me apetece, usando tintas que saem com as lavagens para não ficar com uma raiz demasiado marcada entre pinturas, já que passo facilmente meses e meses sem pintar. Contudo, este pintar quando calha não me resolve o problema dos cabelos brancos visto que um mês depois já lá estão eles a acenar alegremente para toda a gente, por isso teria de começar a pintar com frequência, tal como a minha mãe faz há anos. 

E eis que ando aqui a pensar nisto, à beira dos meus 34 anos, e a pesar na balança se quero nesta idade entrar nesta rotina constante de pinturas (com a trabalheira, despesa e falta de paciência que tenho para isso) ou se me lixo para isto tudo, mas vivo com uma imagem que sei que podia ser melhor e que já me incomoda um bocadinho. Dúvidas, dúvidas que a idade me traz....


14.9.18

A cantina escolar

Mal comecei a dizer que a Mini-Tété entraria este ano na escola em "full-time" (ou seja, manhã, almoço e tarde) comecei logo a ouvir das mães com quem me dou, e que têm filhos da mesma idade da Mini-Tété, que coitadinha da minha filha, que a comida da cantina é péssima, que eles não comem nada, que a comida não presta, que não há condições, e que o melhor é ir buscá-la para almoçar em casa e depois ir levá-la à escola ou até mesmo ficar com ela de tarde. A minha resposta nunca variou muito e era algo ali à volta do "Pois, vamos ver como vai correr...".

Mas aqui entre nós, admito que ficava a pensar nisto. Obviamente que não quero a Mini-Tété a comer mistelas cinzentas sem conseguir descortinar um ingrediente que seja, para isso realmente é preferível que venha comer a casa, mas será efectivamente a comida da cantina assim tão má?
Se pensar nos meus tempos de escola, lembro-me de adorar a comida da minha escola primária. Era mesmo adoração ao ponto de eu querer ser professora mas apenas daquela escola por causa do almoço e de ainda hoje fazer pratos inspirados naqueles que me lembro de comer lá. Ainda assim, tenho conhecidos que andaram nessa escola comigo e que guardam péssimas recordações da cantina, odiavam a sopa, não gostavam do segundo-prato e não têm nada de bom a dizer sobre os almoços e lanches (vá, eu ao lanche também não gostava do copo de leite que éramos obrigados a beber).
No ciclo, a qualidade da comida decresceu um bocado mas ainda assim nada que me fizesse não gostar de lá comer. Se da escola primária guardo na memória a ideia de serem almoços de topo de gama, no ciclo a comida parecia-me normalíssima. Às vezes gostava, outras vezes não. Mas mais uma vez, também me lembro de haver colegas que não apreciavam almoçar por lá.
Já na escola secundária, a comida da cantina parecia-me óptima e digo "parecia-me" porque só almocei lá duas vezes. Infelizmente, o resto da turma não achava que comer na cantina fosse fixe ou bom (ou fossem quais fossem as razões) e preferiam ir para o bar almoçar folhados mistos, ice teas e kinder delices. E aqui a Tété não gostava nem gosta de comer sozinha por isso ia com eles, muitas vezes a chorar por dentro por não ir à cantina.
Já o meu irmão faz parte do grupo de nunca gostou de comer em cantinas ao ponto de preferir não almoçar.

Ora, é pensando nisto que acho estranho que as comidas da cantina sejam assim tão más quanto me descrevem. Porque se na minha altura, não o eram (na minha perspectiva), não faria sentido que ao longo do tempo tivesse até havido melhorias, visto a crescente preocupação com a alimentação infantil? Não farão estas mães parte do grupo que não gostava de almoçar nas cantinas em criança e continuam com a mesma ideia negativa da mesma? Ou terão elas razão? Imagino que haja cantinas muito boas e outras muito más, mas genericamente falando, como será realmente a comida de cantina nos dias-de-hoje?

Há dias, uma mãe contava que a filha não come nada na escola e que ela está a desesperar, que a comida é com certeza péssima e que já não sabe o que fazer. No que toca à Mini-Tété, já fomos avisados que praticamente não come nada, embora aceite provar um pouco de tudo (regra da escola e cá de casa). Já o esperávamos até pela descrição dela pois há dias em que diz apenas que comeu um iogurte ou uma maçã. A mim não me stressa nem me faz pensar que a comida é má, apenas sei que ela precisa de tempo para se adaptar a uma comida que tem um sabor diferente da que come em casa, a um lugar diferente cheio de crianças e barulhento, a outro ritmo à refeição, que à hora do almoço deve estar perdida de sono e quer mas é dormir em vez de comer e que no meio de tanta coisa nova, fará o que fazem tantas crianças quando sentem que nada controlam: controlam aquilo que conseguem e geralmente é a comida, pois não as podem obrigar a comer. É uma fase e há que a respeitar. E só depois desta fase é que perceberemos realmente se ela gosta ou não da comida da escola.




10.9.18

Tété e as abelhas

Eu gosto de abelhas, à distância, mas gosto delas, ou não tivesse eu ouvido na minha infância uma série de palestras que a minha ensaiava antes de ir falar com os apicultores. Ainda não tinha eu 10 anos e já sabia imenso sobre abelhas e as doenças que apanhavam. Ficou o carinho e a recordação de estar sentada a ver os slides (aqueles quadradinhos pré-históricos que os miúdos de hoje não fazem a mínima ideia do que seja) e a ouvir a minha mãe falar, fazendo-lhe perguntas a seguir para ver se ela sabia o que dizer.

Ora mesmo gostando de abelhas, tenho-lhes muito respeitinho e acho que funcionamos maravilhosamente com uma boa dose de distância de segurança entre nós. O que não tem acontecido nas últimas semanas em que mal abro uma janela entra, no mínimo, uma abelha pela casa dentro, voando por todas as divisões, pousando nos brinquedos da Mini-Tété, passeando-se pelo chão ou até pairando graciosamente à volta da minha cabeça (o que é o terror porque se alguma entra neste cabelo, nunca mais ninguém a encontra e a faz sair). Além do mais, eu sofro de uma série de alergias sem causa aparente, desde alergias respiratórias a alergias alimentares, já tive a bela surpresa de ter várias vezes a úvula ("sininho" da boca) inchada e em sangue e até a língua com o dobro do tamanho, pelo que não estou com grande vontade de descobrir se sou ou não alérgica à picada da abelha. Sobretudo depois de ter descobrir há umas semanas que um tio o é. 

Portanto, entre a possível picada de uma abelha que um dia tenha um dia mau e decida descarregar em mim as suas frustrações e os mini-ataques cardíacos que tenho diariamente nas minhas longas tentativas de as expulsar cá de casa, cheira-me que não vou chegar viva aos 34 anos (falta menos de um mês, uhuh!!).

3.9.18

Primeiro Dia de Escola



A Mini-Tété acordou antes do despertador tocar, ansiosa pela escola. À chegada, tudo corria bem, encontrou uma cara conhecida, os pais estavam lá, adorou a sala, quis ver os brinquedos. Quando percebeu que íamos mesmo embora, começou o pranto e passámos de sermos praticamente os primeiros pais a despedirem-se para sermos dos últimos a abandonar a sala. É que isto de dizer "não se deve demorar dentro da sala, é dizer adeus, dar um beijinho e sair mesmo que eles fiquem a chorar" é muito fácil de dizer mas ninguém nos previne que as pequenas criancinhas se podem agarrar a nós tipo lapas e todo o plano vai por água abaixo. Eu saí primeiro, convencida que o Jack teria mais facilidade em acalmá-la mas não resultou. Entre estar agarrada às pernas do pai, aos braços do pai e ao pescoço do pai, a Mini-Tété não permitia que o Jack desse um passo que fosse sem que ela não o acompanhasse. Por fim, teve de ser a auxiliar a agarrá-la enquanto nós desaparecíamos da vista dela, de aceno na mão, sorriso nos lábio e o coração apertadinho.

Da minha parte, a coisa estava controladíssima, tinha rosnado ao Jack quando ele tinha começado a perguntar como eu estava porque era melhor eu não abrir a boca, mas descontrolou-se quando a auxiliar à saída nos perguntou como tinha corrido. Oh, lágrimas teimosas a surgirem-me nos olhos, logo eu que não gosto nada de chorar em público. Mas vá, engoli em seco algumas vezes, ouvi as esperadas palavrinhas de apoio e saímos dali, já com tudo sob controlo. 

No dia de hoje, a Mini-Tété ficaria apenas 2h na escola (com a nossa dificuldade em sair de lá, acabou por ficar apenas 1h30 sem nós) e não a inscrevemos na cantina. A partir de amanhã será todo o dia mas nem todas as escolas funcionam assim. Há escolas que na primeira semana abrem apenas de manhã para a adaptação e outras fazem até uma semana inteira com apenas um hora por dia. Cada escola, as suas regras.

À hora da saída esperava-nos uma Mini-Tété de beicinho mas que rapidamente retomou o seu papel de papagaio falante e embarcou numa descrição de meia-hora de tudo o que se tinha passado na escola na nossa ausência. Isto, o facto de termos visto como interagem com as crianças, o já termos recebido uma fotografia de hoje das crianças na sala, o cuidado nalguns pormenores, descansou-nos o coração. Já ela, está desconfiadíssima por ter de lá voltar amanhã, mas já sabíamos que a adaptação não seria fácil. E a mãe está bem mais calma do que acharia que ia estar com tudo isto (se calhar está para me dar uma coisinha má qualquer e eu sem saber).


A mochila e a etiqueta foram compradas em Portugal. 
Mochila - Jumbo
Etiqueta - Fnac




2.9.18

Adeus, papel de mãe-a-tempo-inteiro


Quando preenchemos os papéis para o baptizado da Mini-Tété, perguntavam quais as nossas profissões. Para espanto do Jack, quando foi a rever as informações, eu tinha escrito "mãe-a-tempo-inteiro". Perguntou-me se isto seria considerado uma profissão, encolhi os ombros, não sei, no fundo não sei o que chamam a quem fica em casa com os filhos sem ter um emprego onde receba pelo trabalho que faz, mas para mim ser mãe-a-tempo-inteiro foi o meu trabalho nos últimos 2 anos, 10 meses e 17 dias.

Hoje é o meu último dia neste trabalho. Ela vai entrar amanhã na escola e eu continuarei a ser a mãe dela, mas já não desempenharei este papel presencialmente 24h por dia. É o final de um ciclo e uma mistura de sentimentos, um amargo por estar a acabar, a ansiedade de uma mudança, um alívio de uma missão cumprida. Foram (quase) 3 anos extremamente duros. Talvez não seja assim para todas as mães, talvez para algumas o simples facto de existirem como mães lhes seja natural, instintivo, tão fácil como respirar. Mas para mim, ao contrário da minha mãe que acha que sou naturalmente maternal, ser mãe dá trabalho. Aliás, tenho tanta noção disto que sou incapaz de querer ter uma carrada de filhos pelo trabalho todo que já senti com uma. Nem sequer sei se terei coragem de repetir tamanha façanha se algum tiver um segundo filho. Talvez não baste saber que existo, que estou ali a tomar conta, porque para mim há a enorme responsabilidade de estar a educar um pequeno ser humano. 

Estar lá para todos os choros, todas as birras, todas as fases, acompanhar, pesquisar, procurar, aprender, gerir o melhor possível, cometer erros, aprender com eles, estar lá de dia e de noite, 7 dias por semana, 24h por dia, é como ter um emprego onde nunca se pára de trabalhar. E havia fases em que eu reclamava como o Jack e dizia "Sabes o que é ter um patrão que nunca está satisfeito, que ora quer dormir, ora quer comer, ora quer brincar, ora quer colo, ora quer desarrumar, ora faz birra, ora chora sem saberes porquê, ora destrói o que fizeste, ora desarruma o que arrumaste, ora pede isto, ora pede aquilo, ora exige aquele outro, e no fim nem um obrigado diz e não te paga? Eu tenho um patrão assim!". Ahahah, felizmente não era sempre assim mas houve realmente fases em que tinha vontade de pedir à Mini-Tété um pequeno ordenado ao final do mês e o meu direito a férias. 

Houve fases em que repetia todos os dias para mim que eu não nasci para isto de ser mãe-a-tempo-inteiro (eu sempre compreendi as mães que dizem que não seriam capazes de ficar em casa com um bebé sem voltar ao trabalho meses depois, mesmo!), fases em que 3 anos me pareciam uma eternidade, uma ideia louca ou capaz de me deixar mentalmente louca quando chegassem ao fim. Não foram 3 anos cor-de-rosa. Mas foram 3 anos extremamente coloridos porque para contrabalançar as fases mais escuras, havia as fases mais coloridas, os momentos mais brilhantes, a certeza de estava a viver uma aventura fantástica. Ter o privilégio de viver tudo o que vivi, assistir a tudo o que assisti, estar sempre lá, gerar e criar um pequeno ser humano foi das melhores experiências da minha vida. Ninguém me tira estes 3 anos da vida da Mini-Tété e eu só posso agradecer por isto. Vivi estes 3 anos o melhor que pude, aproveitei o melhor que podia e sabia, e no fim resta o alívio de sentir isso mesmo e de olhar para ela e ver que fiz um bom trabalho (no mínimo dos mínimos, está viva por isso sobreviveu a 3 anos comigo, ahah). Vou guardar com muito carinho estes 3 anos da nossa vida.

Agora entramos numa nova etapa, necessária e boa para ambas e vamos vivê-la da mesma forma: o melhor que sabemos e podemos, com a certeza que o importante é ser feliz. Adeus, papel-de-mãe a tempo-inteiro. E sem culpas. Afinal como o meu pai diz: "Os pais não têm de estar sempre com os filhos, têm é de estar sempre lá quando eles precisam". E eu continuarei a estar.♥

29.8.18

Quem me dera comunicar por pensamento

Se eu pudesse comunicar por pensamento com a futura educadora da Mini-Tété, dir-lhe-ia que a Mini-Tété vai chorar, é normal que chore, esteve quase 3 anos comigo em casa, o mundo dela sou eu e das poucas vezes que a deixei com outras pessoas, eram pessoas da minha confiança e que ela já conhecia bem (avós, sobretudo). Por isso, vai chorar porque a vou deixar com estranhos, numa sala cheia de crianças a precisar de atenção, que fazem barulho e choram também. Dir-lhe-ia que a maneira mais rápida de fazer a Mini-Tété parar de chorar é assoá-la. O choro entope-lhe o nariz e o desconforto que isso causa fá-la chorar mais. Por isso, assoando-a resolve-se logo um problema e traz-lhe a certeza de que o resto também se resolverá, o que diminui ou acaba com o choro.

Dir-lhe-ia que a Mini-Tété não vai falar. O pai pouco falava na escola e a mãe durante anos ouviu dos professores que deveria participar mais nas aulas. Os pais são tímidos e calados por natureza (a não ser com amigos e muito à-vontade) por isso a Mini-Tété tem a quem sair. Não vai falar porque não conhece ninguém e porque não vai confiar. Não vai falar porque vai perceber que os meninos e a educadora falam uma língua que não é aquela que ela mais ouve e que não vai ter lá a mãe para traduzir aquilo que ela não percebe logo. É dar-lhe tempo. Ela aprende palavras muito facilmente e rápida e timidamente começará a dizer o que quer.

Dir-lhe-ia que com a Mini-Tété o que resulta é explicar-lhe as coisas. Não vale a pena tirar-lhe alguma coisa das mãos ou obrigá-la a sentar-se ou a ir seja para onde for. Ela vai chorar porque não vai compreender porque a estão a tratar assim. Se lhe pedirem e explicarem, ela dá e ela vai. Talvez tenha sido falha nossa, sempre explicámos, não a habituámos a cumprir "só porque sim" e não compreende que às vezes tem mesmo de ser assim e pronto.

Dir-lhe-ia que não quero que a obriguem a comer nada. Sou contra isso. E que me revolta o estômago só de pensar que alguém o pode fazer. Ela come quando tem fome, ponto. E se não quiser almoçar, não almoça. Terá fome mais tarde? Provavelmente, mas é assim que aprenderá que para não a ter, o melhor é almoçar. E não quero que gritem com ela. Nós não o fazemos, não se grita em nossa casa por muito que nos falte a paciência, e ela vai ter medo. Não há razão para gritarem porque não é assim que ela vai compreender.

Dir-lhe-ia que ela vai chorar de cansaço. A Mini-Tété teve os seus próprios horários até agora e as manhã não costumam ser tão longas como serão na escola. E por isso ela terá sono ao final da manhã pois estará mais horas acordada do que está habituada. E é capaz de chorar por só querer dormir. E não vai comer porque o sono não lhe permite. Depois habitua-se mas nos primeiros tempos é capaz de haver muito choro, pouca fome e muito sono. 

Dir-lhe-ia que é um doce de menina, calma, sossegada, que gosta muito de aprender, gosta de regras, gosta de saber que faz bem as coisas. Dir-lhe-ia que é como a mãe, que não é muito de contacto humano, que dificilmente aceitará dar a mão a outra criança a não ser lhe expliquem que é preciso,  e que é capaz de negar abraços e beijos. Dir-lhe-ia que não quero que lhe façam mal, que estejam atentos, que ela ainda não sabe que tem de se defender porque nunca precisou de o fazer, que não compreenderá que as outras crianças a empurrem ou lhe tirem as coisas. Ela vai aprender, que remédio, tem de ser, mas é preciso dar-lhe tempo para isso e não deixar que abusem com ela.

Dir-lhe-ia que nem por um segundo me arrependo de a pôr na escola porque sinto que é uma das melhores coisas que lhe posso dar: o acesso à educação. E que por isso espero que todos façam o seu papel para que ela possa usufruir feliz e bem deste direito.

E por fim, dir-lhe-ia que têm ali, várias horas por dia, o meu coração. E como não consigo viver sem este orgão vital, só quero que o tratem bem. Eu só a quero feliz. Não peço mais nada.