Este é daqueles assuntos em que consigo perfeitamente perceber quem não concorda com obrigar as crianças a cumprimentar os avós ou seja quem for quem um beijo, mas que na prática faço o oposto. Não li em lado nenhum como se deve fazer, qual a postura correcta a adoptar, por isso é efectivamente um daqueles temas em que cá em casa seguimos o nosso instinto e aquilo que nos parece correcto.
Eu fui educada a cumprimentar todas as pessoas que os meus pais conheciam com um beijinho. Fossem os avós, fossem os tios, fossem os amigos de longa data ou simplesmente aquela colega de trabalho que via apenas uma vez por ano. Nem me era dada outra hipótese e às vezes era realmente a última coisa que me apetecia fazer, sobretudo quando eram imensas tias, quase que em fila indiana para receber um beijinho. Agora, à luz dos olhos de adulta, percebo que para aquelas tias-bisavós que eu pouco via, este beijinho da sobrinha-bisneta era importante e por consequência era importante para a minha mãe, cujas tias-avós eram um forte pilar na vida dela e que ela gostava de ver felizes. Consigo até colocar-me no lugar delas, com uma sobrinha-neta que ajudaram a criar e que agora lhes apresenta os filhos, uma nova geração, que querem conhecer, beijar e abraçar.
Não acho de todo que isto me tenha criado uma ideia distorcida dos limites do meu corpo ou mais vulnerável a qualquer contacto menos próprio. Um beijinho é um beijinho, ponto. Tudo o que se passasse daí, que nunca aconteceu, era obviamente errado.
Não ajuda também conhecermos de perto um caso em que os netos, entrando na casa de avós que vêem com relativa frequência e em cuja casa chegaram a pernoitar sem os pais, passem por eles sem um beijo lhes dar. Não chocará toda a gente, mas a mim choca-me. Choca-me a falta de sensibilidade, de educação e o ar magoado que os avós tentam disfarçar por ficarem de cara esticada à espera de um beijinho que não chegou. Ou o caso em que o pai chegado a casa depois de um dia de trabalho não merece sequer um olhar de boas-vindas dos filhos que permanecem nos sofás agarrados aos telemóveis. A Mini-Tété sabe que quando o pai chega a casa, pára o que está a fazer e vai dar-lhe um beijinho. Acho que é o mínimo que ele merece. Eu também o faço e gosto que mo façam a mim. Odiaria chegar a casa e ter a minha filha a continuar a ver desenhos animados e o meu marido a ler um livro, sem nenhum dar sinal que deu pela minha entrada.
Por arrasto, e porque são pessoas importantes para nós, os avós, bisavós e tios merecem um beijinho quando nos encontramos e despedimos. Por skype, a Mini-Tété sabe que não é obrigada a aparecer e a participar na conversa, pode continuar na brincadeira, mas deve vir mandar um beijinho de despedida quando a conversa termina. Acho uma questão de educação, mesmo que muitos não concordem. No fundo, vejo isto como uma maneira de educar a mostrar o carinho e respeito que temos por aquelas pessoas.
Li por várias vezes que as crianças beijam e abraçam espontaneamente as pessoas com quem se sentem confortáveis. Provavelmente é o que fará a maioria mas a Mini-Tété não é nada virada para demonstrações físicas de amor. Beijinhos e abraços aos pais só dá em duas situações: se pedirmos ou numa tentativa de nos acalmar se estivermos a ralhar com ela. E se é assim com os pais, com os outros muito menos é. Por isso, se estivermos à espera que cumprimente com um beijinho por livre e espontânea vontade acho que temos um longo caminho pela frente, pelo que mais vale ir educando e pedindo que dê. E há que reconhecer que a Mini-Tété não se faz rogada quando pedimos que dê um beijinho a um familiar ou amigo, o que ajudará também nesta postura.
No fundo, acho que depende da criança, da ligação aos avós, amigos e outros familiares (insisto com a Mini-Tété para dar um beijinho aos avós mas não o farei se ela recusar beijar aquela tia que nunca viu na vida), da nossa própria ligação a essas pessoas (há pessoas que cumprimento com um beijinho mas nem peço à Mini-Tété que o faça, e há pessoas que evito beijar e que me irritam solenemente se tentam fazê-lo à Mini-Tété), das circunstâncias e da própria maneira como fomos educados. Agora, parece-me um claro exagero dizer que obrigar uma criança a beijar os avós é violência. Diria mesmo que é não ter noção nenhuma do que é realmente violentar uma criança.