25.3.21

Atendimento ao público

Há uns meses fiz uma compra on-line numa cadeia de lojas de roupa onde ia amiúde com a Mini-Tété quando ainda estávamos as duas por casa nos seus primeiros anos de vida. Uma vez que as lojas estavam fechadas, havia apenas a possibilidade de ir levantar a encomenda à porta de loja, coisa que fiz. Ainda estava a atravessar a rua quando da loja sai uma funcionária claramente entusiasmada por me ver dizendo alto e alegremente "Madame C!". Fez-me uma festa, perguntou-me como estava, ai que contente que tinha ficado ao ver-me, que ainda bem que tinha comprado, se estava tudo bem de saúde, volte sempre, ai que gosto em a ter visto. Entrei no carro com a minha encomenda, meio abananada e a pensar que provavelmente me tinha confundido com alguém. Não sou mal-educada mas também não sou a pessoa mais social do mundo nem do tipo de pôr conversa com as funcionárias das lojas, pelo que acho sempre que nem devem reparar em mim.

Meses mais tarde, nova encomenda mas desta vez as lojas estavam abertas e perante alguma dificuldade em perceber se haveria uma fila específica para o levantamento de encomendas, dirigi-me a uma funcionária para perguntar. Era a mesma. Novamente uma festa! "Ora essa, Madame C, dou-lhe já a sua encomenda! Como tem passado, Madame C? Siga-me, por favor, Madame C. Tomei a liberdade de já ter introduzido os dados do seu cartão de loja por isso agora é só pagar, Madame C.". Não sabia se havia de rir com o meu apelido dito tantas vezes ou com a evidente alegria da senhora ou se me escondia atrás de uns cabides por ter outras clientes curiosas por saber quem seria a Madame C. que suscitava tal reacção. 

Ontem tive de ligar para a loja para marcar uma hora para poder levantar uma nova encomenda (lojas fechadas novamente e tal...) e apanhei a mesma funcionária. Novamente uma festa, "Que prazer falar consigo Madame C, venha então a essa hora, cá a espero, até amanhã então Madame C". Hoje, à hora combinada lá estava eu mas desta vez, despois da festa por me ver e de dois minutos de conversa, convidou-me a entrar. Entrei na loja vazia, de portas fechadas ao público e diz-me ela: Já aqui tenho a sua encomenda Madame C, mas esteja à vontade, tem a loja só para si, pode ir ver tudo o que quiser. Admirada, expliquei que estava na hora do almoço, que não tinha muito tempo mas que agradecia a simpatia. Retribuiu-me com um "Compreendo, Madame C, mas já sabe, se um dia quiser vir aqui fazer as suas compras, ligue, marcamos uma hora e terá a loja só para si como hoje, caso precise de alguma coisa para si ou para a sua menina".

Acredito que faça isto com todas as clientes, não sou especial nem deixo ali rios de dinheiro (estas encomendas por exemplo foram todas de artigos com boas promoções), não sou um poço de simpatia nem extremamente sociável, mas como disse ao Jack, sinto-me sempre com se tivesse ido à Louis Vuitton nos Campos Elísios e venho sempre de lá meio abananada e com um sorriso na cara. :)

2.1.21

Metas para 2021

 Li algures que não devemos ter objectivos mas sim metas e que cada ponto deve ser preciso e não algo demasiado geral (por exemplo, em vez de "Ler mais", decidirmos que vamos "Ler 10 livros no mínimo). Tentei respeitar isso ao fazer a minha lista, que agora vos transmito embora nalguns pontos não vá ser um livro aberto e muito específica nos números a atingir para alcançar cada meta. :)

1. Poupar para o Fundo de Emergência

Este ano foi um ano de aprendizagem sobre finanças pessoais e a gestão das mesmas. Sempre fui de "poupar por poupar", sem nenhum objectivo preciso nem valor específico a alcançar. E sempre me dei bem com este sistema. Mas depois de uns anos em que não havia propriamente uma poupança a ser aumentada (porque não trabalhava, por exemplo), depois de alguns debates em blogues, senti necessidade de ir à procura de informação, de que percentagem devemos poupar do nosso salário, o que é o Fundo de Emergência e qual o valor que deve ter. Por isso este ano quero engordar o Fundo de Emergência que tenho para valores mais confortáveis.

2. Perder peso

Tinha de ser, não era? :D Mas este ano tenho um objectivo mais preciso que é alcançar o peso que tinha quando casei. No fim do ano voltamos a falar. :P

3. Tratar de mim.

Já o comecei a fazer este ano de uma forma mais regular mas quero realmente ser disciplinada. Pintar as unhas mais vezes, fazer máscaras de cabelo mais vezes, fazer máscaras de argila mais vezes. Dormir mais horas. Comer melhor. Dançar. Rir. Ler. Pequenos pontos que todos juntos farão um bem imenso por mim e pela minha auto-estima.

4. Arrumar as fotografias no computador.

Oh, que tarefa hércula. Tenho-as desorganadíssimas e isso não é nada meu e causa-me urticária. Este é o ano em que as vou arrumar devidamente em pastinhas bem identificadas. E fazer salvaguardas.

5. Imprimir fotografias e pendurar molduras nas paredes. 

Continuo com as paredes da casa vazias à espera de fotografias. E quadros. Este ano é o ano.

6. Procurar um novo emprego.

É altura de ganhar asas e procurar outras oportunidades. Já o sentia em 2020 mas bom, pandemia e tal, não senti que fosse o momento para arriscar. Não estou desesperada, não estou a querer sair de onde estou à força e cheia de pressa, mas acredito que posso ser mais feliz a fazer outras coisas por isso posso ir procurando.

7. Passar um fim-de-semana fora.

Huuuu, que doida, um fim-de-semana fora. Pois, mas com isto do covid um fim-de-semana já me parece um luxo, nem me arrisco a pedir uns dias mais. Apetece-me pegar no Jack e na Mini-Tété e ir passar um fim-de-semana algures, num hotel com piscina, para sairmos da nossa rotina e irmos conhecer outras coisas.

8. Voltar a desenhar.

Gosto tanto, dá-me tanto prazer e deixei de o fazer há medida que os anos foram passando. No outro dia, o vizinho comentou que a vizinha gosta de desenhar e eu fiquei surpreendida pois não sabia nem nada indicava tal. E depois percebi que eles também não sabem que eu gosto de desenhar simplesmente porque já não o faço. E quero voltar a fazer.

9. Usar mais o robot de cozinha.

Uma pessoa distrai-se e acaba a usá-lo para fazer sopas e massa para pão. Tanto potencial e depois é isto. No outro dia fiz um arroz de pimentos que estava uma maravilha. É para continuar.

10. Destralhar.

Somos uns acumuladores (mais ele do que eu). Ainda há muito trabalhinho pela frente.

11. Avançar com as obras na casa. 

Pois é, ainda não temos a casa acabada e este ano queremos avançar com uma ou outra coisa que nos levará algum tempo e dinheiro. Haja coragem!

12. Este deixo para mim. Em aberto. :)


FELIZ ANO 2021 PARA TODOS!




Adeus 2020!

Tenho cá para mim que será um ano que não deixará muitas saudades à maior parte das pessoas. No meu caso, não sinto claramente que tenha sido o melhor ano da minha vida, mas acho que acabei por ter sorte num ano que podia ter sido simplesmente horrível. Não fomos apanhados pelo coronavírus nem ninguém que eu conheça. Não perdi ninguém directamente. Tivemos alguns sustos de saúde na família que me deixaram o coração apertadinho mas que se resolveram e agora é esperar que não se tornem tradição anual e que não reapareçam neste ano que agora começa. Tive a oportunidade de ficar em casa com a Mini-Tété sem estar em tele-trabalho e foi uma boa experiência. Nós sabemos estar as duas em casa, foi assim mais de metade da vida da Mini-Tété, não nos enlouquecemos uma à outra e eu sei gerir uma criança em casa 7 dias/semana, pelo que tinha a tarefa mais do que facilitada. Adorei fazer de professora da Mini-Tété, de todos os dias lhe ensinar o que era pedido pela sua professora, as letras, os números, as adições, trabalhos manuais, oh o que me diverti, sabendo claro que seria uma experiência passageira. O regresso à escola foi provavelmente o momento mais complicado pelo que passei este ano, por a escola não ser a escola, mas sim um lugar com um protocolo sanitário tão rígido e estúpido que temi pela sanidade emocional da minha pequenina. Nunca chorei tanto depois de deixar a Mini-Tété na escola como naqueles dias. E nunca a vi chorar de uma maneira tão assustada e em pânico como naquela altura (e oh, se ela chorava no primeiro ano de escola, com direito a passagens à força para o colo das auxiliares, gritos e o diabo a sete). Consegui ir de férias a Portugal no Verão matar saudades da família, não perdi o emprego, conseguimos finalmente vender o apartamento depois de muita luta. Tive de anular o Natal em Portugal o que me deitou abaixo mas não poderia correr o risco de eu ficar doente ou, pior, levar os meus a ficarem doentes, sabendo perfeitamente do quão arriscado seria para eles. Acabámos o ano todos com saúde, o que, tratando-se de 2020, parece-me uma maravilha.

As minhas resoluções de 2020 devem ter ido todas pelo cano mas farei a tradicional análise na mesma:

1. Ler mais

Bom, não sei se li mais do que em 2019 porque não fiz nenhuma contagem mas, do que me lembro, comecei bem lançada com 1 livro em Janeiro, 1 livro em Fevereiro e depois uma pandemia em Março que me fez focar noutras coisas. Não sei se li alguma coisa até ao Verão mas tenho ideia que li 2 ou 3 livros nas férias. Em Setembro e Outubro já não me lembro (tenho ideia que li um, sem certezas), mas sei que em Novembro reli um livro e li um novo, e que em Dezembro, embora não tivesse planeado ler, despachei em 2 dias um livro que recebi no Natal. Assim por alto, acho que posso afirmar com segurança que li pelo menos 8 livros, o que não acho nada mal. :)

2. Organizar-me mais

Huuum, esta é difícil. Mas acho que posso dizer que alcancei o objectivo porque tive de me reorganizar para criar novas rotinas com a Mini-Tété em casa para que tudo fluísse sem problemas e os dias se passassem sem stress. E se durante o confinamento abandonei o sistema da organização semanal das refeições, consegui recuperá-lo nos últimos meses, o que também me deixa contente.

3. Vender o apartamento

Yes, yes, yes, mil vezes yes!!! Adeus vizinho idiota, adeus inquilinos idiotas do vizinho idiota, adeus problemas, adeus, adeus, adeus. Este ano contei por alto a uma amiga as coisas pelas quais passámos naquele apartamento à conta da Besta porque sei que toda a gente, ela incluída, não faz ideia e acha apenas que era um vizinho chato e implicativo. Não era. Chegámos a ter de ir à polícia por ter tentado empurrar o Jack das escadas, eu tive uma crise de tensão alta na gravidez por ele ter começado aos murros na porta do apartamento, como se a fosse deitar abaixo. Tivemos papéis colados com insultos no carro, ovos atirados ao carro, cartas abertas. E tantas, tantas, tantas outas coisas, a juntarem-se às coisas menores, como obras às 3h da manhã, urina no patamar, cocó de cão nas escadas, música a horas impróprias e gritos dias e semanas seguidos. A Mini-Tété era uma bebé calma, pouco chorava, mas houve alturas em que bastava ouvir a voz dele para desatar a chorar. Não sabíamos o que era viver em paz. Na brincadeira até dizíamos que tinha sido ele a inventar este vírus só para nos atrasar a venda do apartamento mais uns meses.

4. Poupar, poupar, poupar

Não foi um grande ano para isso, há que admitir. Gastei menos em gasolina para o trabalho mas gastei bem mais em refeições em casa porque passávamos mais tempo aqui. Ainda assim poupei um pouco e estou contente com isso.

5. Destralhar

Destralhei bastantes coisas e acho que ainda tenho bastantes por destralhar. Mas demos uma valente arrumação no arrumo que temos e destralhámos muita coisa, por isso acho que vou considerar que consegui cumprir esta resolução.

6. Acalmar

Ahahahah, facílimo com uma pandemia mundial a ocorrer, com o natural receio de apanhar este vírus ou que ele apanhe algum familiar ou amigo. Maaaaaaas, fora isto, sinto sim que andei mais calma, não tanto em pânico com a vida, com más notícias, com pequenos problemas. :)

7. Não me divorciar

Feito! Ainda aqui estamos de pedra e cal, a dias de comemorar 16 anos de namoro. Houve uma pausa obrigatória nas 24h juntos pois durante uns meses deixei de trabalhar com o Jack e fiquei em casa com a Mini-Tété, mas por outro lado tivemos de lidar com o stress de o trabalho de uma equipa de 3 pessoas ter ficado todo em cima de apenas uma: o Jack. Não foi fácil para ele, foi stressante, foi complicado, mas conseguimos gerir isso. E a pandemia aproximou-nos, permitiu mais momentos a dois em casa, e isso compensou eventuais chatices.

8. Encontrar-me como mãe

Obrigada pandemia. :) Estes meses em casa fizeram-nos bem. De repente estava novamente disponível só para ela e, como já referi, isso nós sabemos fazer bem. Regressando ao trabalho e ao equilíbrio entre "mulher trabalhadora" e "mãe" que ainda não domino a 100%, acho que estou a acabar o ano melhor do que o comecei. Bolas, eu queria mesmo era um part-time bem pago e era uma mulher feliz. :P

9. Comer melhor e emagrecer.

Buuuuh. Não faço parte do grupo que engordou na pandemia mas também não perdi peso. Podia ter aproveitado este ano para fazer mais exercício, para comer melhor, sinto mesmo isso. Mas também sinto que estive ocupada a que a sanidade mental da família sobrevivesse a esta pandemia, a ser professora da Mini-Tété, a lidar com saudades várias, a tentar ser feliz no meio deste ano caótico, a aprender sobre o vírus, a aprender novos cuidados e rotinas, e sinto que fiz um bom trabalho. Esta resolução fica para 2021.

10. Viver mais

Pois, não correu bem. A ideia era sair mais, ir conhecer sítios, passear mais...mas houve um vírus chato que mandou toda a gente ficar em casa. Pronto, nem vale a pena pensar muito nisto.

11. Melhorar o meu francês

Acho que vou simplesmente assumir que não tenho jeito para línguas e não falamos mais do assunto, está bem?

12. Saúde

Huuuuuuuuuuuuuuuum, então ninguém apanhou Covid. O que é bom. E já me devia dar por satisfeita. Mas ainda assim tive uma familiar hospitalizada e assustada e um familiar com dores como nunca sentiu na vida. E eu ainda sinto o meu coração meio descompensado à conta deles, mesmo que já se tenham passado uns meses. Mas bom, num ano marcado pelo Covid, não o termos apanhado é um luxo, por isso resolução cumprida. 

Adeus 2020!!!


21.12.20

Não sei dançar

Esta é a conclusão à qual chego (mais uma vez) depois de 3 meses de aulas de dança Jazz. Não é uma grande surpresa, a coordenação motora nunca foi o meu forte e já andar direita sem tropeçar em mim mesma é um feito extraordinário e um esforço diário, por isso ninguém poderia estar à espera que eu encarnasse uma Catherine Zeta-Jones ou uma Renée Zellweger do filme Chicago.

Desde que começou o segundo confinamento em França, no fim de Outubro, que as nossas aulas passaram a ser por Zoom, o que de uma certa forma é uma bênção porque a professora não consegue ver os 4215486452 erros que fazemos através de um ecrã de computador mas também implica uma aprendizagem mais difícil dado tamanho do ecrã e a qualidade da chamada.

Como contei no post anterior, faço estas aulas em casa da nossa vizinha, exactamente a mesma que por artes de bruxaria me levou a inscrever nisto. Há umas semanas, sentindo nós alguma dificuldade com alguns passos, a minha vizinha lembrou-se de pedir à professora que gravasse as coreografias e nos enviasse de forma a podermos treinar em casa sem estarmos sempre a falhar passos ou a cometer erros. Claramente é ela o elemento demoníaco desta amizade porque tal pedido veio simplesmente a tornar-se no maior exemplo do que é uma pessoa querer um buraco para se enfiar e ficar lá a viver nos 100 anos seguintes.

A nossa professora, pessoa amorosa, cheia de paciência e com uma enorme esperança (já a desvanecer-se, penso eu...) em fazer de nós algo a que se possa chamar bailarinas e não parecer apenas que estamos a ser submetidas a choques eléctricos com as pernas e os braços a disparar em todas as direcções, gravou uma aula. 

E enviou. 

A toda a gente. 

E quem é que aparece no vídeo? Ela. 

E quem é que aparece mais? Vários quadradinhos com todas as alunas. 

Incluindo quem? Nós.

Lembro-me que recebi o mail com o vídeo num dia de trabalho. À hora de almoço espreitei e o horror e o ataque de riso que nasceram em mim foram de tal forma que tive de deixar para quando estivesse em casa. Danço mal. Danço mesmo muito mal. O problema é que a vizinha dança apenas ligeiramente melhor do que eu. E juntas é simplesmente como assistir a um comboio a descarrilar e esperar que não haja mortos. Houve de tudo, desde toda a gente parada a ouvir a professora e eu de repente começar a dançar do nada, a vizinha perdida nos passos a começar a nadar bruços com as bochechas cheias de ar, as duas perdidas a tentar perceber qual o passo a seguir, enfim...Eu chorei de vergonha e de tanto rir a assistir àqueles loooongos minutos de tragédia. E há um momento que eu acho que resume perfeitamente o desastre que somos: chamei o Jack para ver uns segundos de forma a que percebesse porque razão eu me desfazia em risos e lágrimas. Ele observa e no fim pergunta:

- Mas vocês não estavam as duas a ouvir e a dançar a mesma música? 

Estávamos. Mas ninguém diria, de facto. Eu ia para a direita, ela para a esquerda. Eu esticava uma perna, ela um  braço, eu rodopiava, ela baixava-se, e assim continuávamos, convictas de que alguma coisa haveríamos de estar a fazer bem. É tudo tão mau, mas tão mau, que nem tive coragem de mostrar aos meus pais, pessoas com quem estou mais do que habituada a rir de mim mesma. Mas há um limite e acho que o encontrei.

Querem saber o melhor? É suposto virmos a fazer um espectáculo final para o público.

Vai ser óptimo. 

18.11.20

Aqui estou eu novamente :)

Estou viva! Mas passo tanto tempo sem vir aqui que qualquer dia já nem sei escrever. Não há grandes novidades na minha vida porque este ano não está bom para concretizar planos ou pensar em coisas novas, vai-se vivendo e procurando focar nas coisas boas que nas menos boas. 

Depois de duas semanas de recolher obrigatório às 21h, estamos novamente confinados desde 31 de Ourubro, desta vez um semi-confinamento, em que as crianças podem ir à escola e os pais podem sair de casa para levar as crianças à escola e/ou trabalhar, devidamente munidos das declarações para o efeito. Fora isso, como em Março, sai-se para ir ao supermercado, à farmácia, pôr gasolina, ir ao médico, paticar desporto, passear o cão e pouco mais. Sempre com nova declaração no bolso.

Assumo que começo a revelar algum cansaço desta situação porque embora seja muito caseira, uma coisa é ficar em casa porque me apetece, outra coisa é ficar em casa porque sou obrigada isso. Ainda assim, não me queixo muito pois sinto que somos privilegiados. Estamos todos com saúde, temos ambos emprego, a Mini-Tété tem escola, e mantemos o contacto social com os vizinhos uma vez que as crianças brincam juntas na escola, partilham o jardim de casa, passam a vida a entrar em nossa casa ou na deles, por isso semanalmente jantamos juntos e fazemos uma noite de conversa e jogos de tabuleiro, o que ajuda a manter a sanidade mental. 

Ah, lembrei-me agora que até tenho uma novidade: em Setembro, no meio de um destes jantares de vizinhos, dei por mim, ainda estou para saber como, a concordar inscrever-me em aulas de dança jazz com a vizinha. Drogou-me a bebida, só pode. Pequena nota: eu não sei dançar, eu nunca soube dançar, eu sou terrível a dançar. Mas eis que de repente ali me vi, no ginásio da terra, a apresentar-me à professora de dança que fez questão de clarificar que as aulas não eram bem para iniciados pelo que teríamos de nos esforçar. Entretanto, confinamento e tal, as aulas passaram a ser virtuais através do Zoom, o que me deixou de orelha murcha porque não tem metade da piada ser assim. Mas, juntei-me à vizinha e fazemos a aula juntas em casa dela, o que nos leva a ataques de riso de ir às lágrimas e bons momentos. Continuo sem saber dançar mas isso é outra história.

Este mês já li um livro (ou melhor, reli pois quis relembrar-me da história antes de começar o segundo com as mesmas personagens) e gostava de ainda ler o segundo antes de entrarmos em Dezembro, mas o livro não me está a prender como o primeiro e não sei se o objectivo será alcançado.

Este ano seria a vez de passarmos o Natal em Portugal mas com tantas voltas e voltaretas à conta deste vírus, cancelámos a ideia, o que me está a custar, confesso. Adoro o Natal com a minha família, adorava estar com os meus pais/irmão e com os meus avós, engulo em seco com medo que algo que lhes aconteça e eu esteja a deitar pela janela fora a oportunidade de passar um último Natal com eles, mas não nos apetece fazer planos, comprar bilhetes de avião e depois as companhias aéreas cancelarem tudo e deitarem um balde de água gelada por cima dos nossos sonhos. Além do mais, sou uma pessoa de risco, a minha mãe imenso, os meus avós também e pior que passarmos o Natal separados era um de nós contaminar os outros como prenda no sapatinho. Não, obrigada.







15.6.20

Reviravolta

E eis que o Presidente da República decide dar uma reviravolta à vida de toda a gente e anuncia ontem que as escolas abrem todas normalmente e obrigatoriamente já na próxima semana. E eu tenho o coração aqui num limbo, sem saber se contrai ou descontrai com tal notícia.

Por um lado, imagino o trabalho que vai existir em tantas escolas, depois de terem sido esvaziadas, de voltarem a preparar tudo para receber novamente o número normal de alunos. E para apenas mais duas semanas de escola. Imagino as dúvidas que vão existir e que terão de ser resolvidas já esta semana. Abrirão as cantinas novamente?
Imagino os pais e as crianças que já se tinham organizado e preparado mentalmente para não haver mais escola este ano e vêem-se agora a braços com esta nova decisão. Mesmo nós tomámos decisões para as férias, contando que o ATL não estivesse 100% operacional, que não poderão ser alteradas e que não sei se à nova luz dos acontecimentos serão as correctas. 
E se já não compreenderia muito bem que em Setembro tudo estivesse normal quando dois meses antes as regras eram tão apertadas, imaginem o meu estado de incompreensão com esta medida. Se daqui a uma semana as crianças vão todas regressar normalmente à escola, por que raio a minha filha e tantas outras crianças tiveram de passar por um ambiente de regras tão restritas e desagradáveis até esta semana? Não entendo este passar do 8 para o 80.

Por outro lado, sinto-me aliviada. Mesmo sabendo que será um regresso total, indo todos os dias à escola, acho que custará menos se puder ver a sua educadora, os seus amigos, se poder brincar com eles. Enfim, veremos porque hoje já vieram dizer que cada criança deve manter a distância de 1 metro das restantes, o que, cá entre nós, não me parece ser viável numa escola com dezenas de alunos por sala. Mas acho que ainda assim o ambiente será melhor do que aquele que vive neste momento e isso deixa-me o coração mais leve.

Mas aguardemos. Dada a qualidade da comunicação que este governo tem demonstrado desde que tudo isto começou, ainda pode acontecer amanhã vir o primeiro ministro dizer que afinal as escolas vão mas é fechar todas novamente.

11.6.20

Junho com o coração do tamanho de uma ervilha

Este mês a escola da Mini-Tété abriu novamente as portas, embora com dois grupos muito reduzidos de crianças dado a exigência do protocolo sanitário, distribuindo assim as crianças pelos vários dias do mês. Isto levou a que a escola aceite a Mini-Tété...dois dias. Sim, dois dias neste último mês de escola.

Não vou ser hipócrita e dizer que a queria a ir todos os dias para a escola. Não queria. Depois de dois meses e meio em casa e sabendo eu as condições que a esperavam, não queria mesmo que houvesse um regresso tão drástico. Mas já me estava a preparar mentalmente para que ela fosse pelo menos dois dias por semana de forma a que eu pudesse regressar ao trabalho (lentamente, é certo). Ir apenas dois dias num mês à escola parece-me simplesmente...parvo e sem qualquer propósito. Socializar com as outras crianças? Farão dois dias num mês realmente diferença? Impedir o abandono escolar? A sério? Dois dias de escola vão impedir o quê? Retirar as crianças de lares violentos ou stressantes? Dois dias num mês vão realmente fazer a diferença para estas crianças? Promover o regresso dos pais ao trabalho? Deviam ter visto a cara do patrão quando lhe foi anunciado que eu só trabalharia dois dias este mês (eu ajudo: não ficou propriamente encantado...). Parece-me por isso terrivelmente desnecessário toda a preparação da escola e toda a organização que foi necessária fazer para as crianças irem apenas dois dias. Mais valia não abrirem. Não entendo. Ou melhor, entendo, desta forma o Ministro da Educação pode dizer alegremente que todas as crianças tiveram acesso à escola este mês (mesmo que tenha sido apenas uma ou duas vez). 

Entretanto, conseguimos organizarmo-nos com o ATL e os vizinhos para que eu pudesse ter mais uns dias livres para regressar ao trabalho, o que é sem qualquer dúvida um sentimento agridoce. Eu não estava propriamente farta de estar em casa com a Mini-Tété, esta foi a nossa vida durante anos, sabemos vivê-la sem grandes percalços. Por outro lado, estava sem dúvida a sentir falta de trabalhar, até porque gosto do que faço, e faz-me bem à cabeça sair de casa e ser útil noutro papel para além de o de mãe Digo e repito: acho que a situação ideal para mim era um part-time bem pago. :D

O regresso ao trabalho não me custou particularmente mas acho que nunca chorei como tenho chorado ao deixar a Mini-Tété, também a chorar, na escola ou no ATL. E em minha defesa, o ano passado a Mini-Tété deixou apenas de chorar ao ir para a escola quando faltava um mês para a escola acabar e mesmo assim eu deixava-a de cabeça tranquila (e coração apertado porque não sou uma pedra), sem lágrimas, porque sabia que era apenas uma questão de tempo até ela perceber que a escola podia ser um sítio bom e divertido, e que ela ficava bem entregue, num sítio onde cuidariam bem dela. Agora...quase todas estas premissas falham, porque não é suposto eu deixar a Mini-Tété num sítio onde é recebida por adultos de máscara que ela não reconhece (ou mesmo não conhece de todo) e a assustam, onde não está a sua educadora, onde não estão os seus amigos (os grupos diários de 6 crianças incluem várias idades e turmas), onde vai passar o dia sozinha sentada a uma mesa, de costas para as outras crianças, numa sala onde os brinquedos e livros que ela gostava desapareceram, onde leva o seu almoço, onde brinca sozinha no recreio, onde mal consegue comer seja o que for com o nervos. Caramba, é violento. Para ela e para mim, que me sinto a falhar com quem não o deveria fazer. Acho que dificilmente me esquecerei rapidamente do caco que fico e do ar de pânico da minha filha quando a deixo. É tudo uma grande bosta, é o que é.

Logo no início do mês, a Associação de Pais partilhou umas fotografias a mostrarem como estava a "nova" escola, com as parcas mesas e cadeiras dispostas nas salas vazias, os autocolantes nos bancos corridos indicando onde as crianças se devem sentar para se manterem afastadas entre as elas, e toda uma série de coisas com o objectivo de acalmar o coração dos pais. Mas o meu, ao ver tudo aquilo encolheu-se no tamanho de uma ervilha e acho que ainda não voltou ao seu tamanho normal. Talvez em Setembro volte. Mas depois penso que se em Setembro a escola abrir normalmente, com todas as crianças ao molho, com tudo como era antes, então será que faz sentido dois meses antes estar a obrigar as crianças a passar por um protocolo sanitário tão apertado que não lhes traz propriamente nem educação nem felicidade?

Felizmente, nem todas as crianças e respectivos pais se sentirão assim. Felizmente, para alguns isto é mais fácil ou as condições escolares serão outras. Quando a vamos buscar, a Mini-Tété vem com um sorriso, há dias que coincidem com a ida da vizinha e sei que as deixam almoçar ou estar à mesma mesa porque os avisámos que as duas estão em contacto diário. Acredito que nem tudo será mau, não imagino a escola transformada num inferno, simplesmente não é a escola como deveria ser e isso não ajuda a acalmar todos os corações. Sei que não sou a única a pensar assim, quer a educadora da Mini-Tété, quer as funcionárias do ATL, quer as funcionárias da escola não hesitam em dizer que "aquilo" não é a escola/ATL e que é duro para as crianças.

E para já resta apenas enxugar as lágrimas (as minhas e as dela) e pensar que tudo isto vai passar. E que vai ficar tudo bem.

[Claro que seria pior se a Mini-Tété estivesse doente, claro que seria pior se ela fosse todos os dias nestas condições, claro que seria pior eu ter pedido o emprego...sei tudo isto. Mas saber que podia ser pior do que é não faz com que eu me sinta feliz por aquilo que tenho de mau. Só porque podia ser pior.]




25.5.20

O que se aprende no jardim-de-infância?

Assumo que sempre achei que quando a Mini-Tété entrasse na escola com 3 anos, no pré-escolar (jardim-de-infância), ia basicamente passar o tempo a fazer desenhos, a pintar com os dedos, a cantar músicas com sons de animais e coisas que tal. Imaginem portanto o meu espanto quando a vi logo no primeiro ano a saber escrever o seu nome em maiúsculas. E a copiar sem grandes problemas qualquer palavra em maiúsculas que lhe puséssemos à frente. Tinha deixado na escola a minha bebé e de repente devolviam-me uma criança crescida capaz de reconhecer letras e de as copiar ou até mesmo escrever sozinha o seu nome.

Este ano está no segundo ano (na turma dos 4 anos, portanto) e à conta do coronavirus está quase há 2 meses e meio em casa, a fazer as coisas que a educadora indica para cada dia e há momentos em que dificilmente controlo abrir de boca de espanto. Já consegue olhar para os dias da semana e "ler" cada dia (não lê obviamente, mas reconhece que aquele conjunto de letras significa "samedi" [sábado], por exemplo). Sabe todo o alfabeto em maiúsculas, reconhecendo cada letra. Sabe todo o alfabeto em minúsculas reconhecendo cada letra. Estamos agora a trabalhar palavras que tenham o mesmo som e as diferente maneiras como se escreve esse som. Escrevo palavras em minúsculas que ela reescreve em maiúsculas sem qualquer dificuldade. Todos os dias há exercícios de grafismo (ondas, espirais, etc) para treinar a mão para a caligrafia do próximo ano. Conta até 29. Escreve bem os números até 19 quando ditados de forma aleatória. Já faz contas de somar! Preenche tabelas de dupla entrada! Indica a primeira letra ao ouvir algumas palavras. E daqui a um mês deverá ser capaz de fazer a correspondência entre as fotografias dos seus coleguinhas de turma e o seu nome escrito.

E eu acho tudo isto fantástico. Depois penso que no colégio onde andei, aprendi a escrever e a ler no último ano do pré-escolar (turma dos 5 anos), ou seja, era apenas um ano mais velha que a Mini-Tété e por isso com a idade dela se calhar até já fazia tudo isto e simplesmente não me lembro. Não faço qualquer ideia do programa escolar português neste momento (nem o daqui sabia, quanto mais...) nem mais precisamente o que aprendem as crianças no jardim-de-infância. Nunca pesquisei. Tenho quem me diga que aprendem o mesmo que aqui, tenho quem me diga que não é assim de  todo. A escolaridade em França não é levada da mesma forma que em Portugal, e se nalgumas coisas será melhor, noutras é francamente pior. Mas nunca comparei os programas lectivos por isso não tenho qualquer ideia.  Por isso, digam-me: o que aprendem as crianças no jardim-de-infância em Portugal? É assim? É mais brincadeira? Aprendem outras coisas?