21.3.18

Mini-Tété, a escola e a linguagem

Mini-Tété vai entrar para a escola este ano e eu, como mãe que sou, ando ralada. A minha bebé vai sair debaixo da minha asa, vou lançá-la ao mundo, vou deixá-la com quem não conheço, vai estar horas longe de mim sem eu saber como ela está. E antes que me digam que ir para a escola nesta altura (fará 3 anos poucas semanas depois do início do ano escolar) é o melhor para ela, respondo já que sei bem disso e que é por isso que ela vai (e porque a mãe aguentou estoicamente até agora este papel de mãe-a-tempo-inteiro, para o qual não nasceu, mas sente que já está na altura de entrar noutra fase). Eu sei que fiz o meu melhor neste tempo todo, eu sei que chegando aos 3 anos chega também a necessidade de sociabilizar, que escola lhe dará isso melhor do que eu (pois ainda por cima sou bicho-do-mato), que vai fazer actividades giras e diferentes daquelas que faria comigo, eu sei tudo isto. Mas é a minha bebé e é natural este sentimento de alegria de a ver crescer e fazer-se ao mundo ao mesmo tempo que existe o receio de todas as mazelas que este crescimento e descoberta lhe trarão. É a vida.

Mas ainda assim não é este o maior motivo da minha ralação (e do Jack, já agora). A verdade é que fomos enganados. Passámos o tempo a ouvir que os bebés só começam a falar lá para os dois anos, que os dois anos são muito giros porque finalmente começa-se a ver as crianças a construir a linguagem, que antes disso são só palavras soltas, que há crianças a chegar aos 2 anos a não dizer praticamente nada, e como pais de primeira viagem acreditámos nisto. Uma vez que a Mini-Tété será bilingue (e bebés expostos a dois idiomas tendem a falar ainda mais tarde), tínhamos o plano de a fazer ouvir tanto a língua portuguesa como a língua francesa para que ela começasse a construir dois dicionários linguísticos e fosse assim capaz de comunicar com a família em português e na escola em francês. O nosso plano passava então por me ter a mim a falar português com ela e o Jack a falar francês, mas não tivemos pressa em aplicar esta decisão, e como entre nós falamos português e eu falo português com a Mini-Tété, o Jack foi por arrasto e falava também ele português com ela grande parte do tempo. Mas não havia problema porque a partir dos dois anos aplicaríamos este plano mais a sério.

Lixámo-nos. A Mini-Tété decidiu ser precoce na aprendizagem da linguagem e estragou-nos este plano todo. Com um ano e meio os bebés devem dizer entre 2 a 6 palavras mas a Mini-Tété com pouco mais de ano já dizia mais de quarenta, e com um ano e meio já começava a juntar palavras. O ano passado, depois das férias de Verão, tivemos uma verdadeira estalada da realidade quando chegámos a casa: a Mini-Tété ainda não tinha 2 anos e já fazia frases, cantava músicas e tentava contar histórias. Em português. A evolução tem continuado a um nível absolutamente fascinante e é capaz dos maiores raciocínios. Ainda hoje, com 2 anos e 5 meses, me dizia "A mamã não pode brincar com o brinquedo da Mini-Tété porque a mamã é grande e pode estragar o brinquedo e depois a Mini-Tété fica triste e zangada". Assim, com estas palavras. Dá nomes ao sentimentos, aplica sem problemas o conceito de "hoje" e "amanhã", faz frases enormes, usa vários adjectivos, enfim...Ainda há umas semanas um amigo me dizia que com esta idade as crianças estão naquela fase em que começam a falar e basicamente os pais é que as percebem. É verdade, é o que os livros dizem mas não é o caso dela. A Mini-Tété diz várias palavras "à maneira dela", não correctamente (como "computador" que diz algo como "congutador"), há frases que só a família percebe mas a maior parte do que diz é entendido por perfeitos estranhos e isso é possível ver nas idas a Portugal. Consultando as tabelas de desenvolvimento, no parâmetro da linguagem está ao nível dos 3-4 anos.

Portanto, como eu dizia, lixámo-nos. Temos agora uma filha que se expressa sem qualquer problema em português, explica o que quer, o que sente, o que a incomoda, o que a assusta, pergunta o que não percebe, pede para repetir, e que está habituadíssima a ser compreendida, a compreender e a fazer-se compreender. Em português. Filha esta que entrará daqui a menos de meio ano numa escola onde a língua será outra. E é aqui que surgem os nosso receios.
Quando nos atrevemos a dar voz a estes pensamentos, rapidamente ouvimos por aqui que há várias crianças que entram na escola aos 3 anos sem falar uma única palavra de francês e que um mês depois já falam sem problemas. Falámos até com uma educadora com turmas desta idade que nos confirmou isto mesmo, pelo que o nosso receio não passa por aqui. Estou absolutamente convencida que a Mini-Tété, com a facilidade que tem mostrado até agora para aprender vocabulário, aprenderá a língua francesa sem problemas. O meu (nosso) problema é a entrada na escola e a frustração que sentirá por não compreender os outros e, sobretudo, por não ser compreendida. Durante a matrícula, a directora (que tinha ouvido a Mini-Tété a falar português) comentou algo como "As crianças da idade da vossa, que entram assim sem ainda ter os 3 anos feitos, falam muito pouco, percebe-se pouco o que dizem, ainda falam mal...". Nova estalada da realidade. Ela não é assim mas entrará na escola e a educadora vai ouvi-la e assumir que ela ainda não se faz compreender, simplesmente porque a língua é outra, tomando naturalmente uma atitude diferente da que tomaria se a estivesse a perceber, o que para a Mini-Tété, que gosta muito pouco que não compreendam o que ela diz, não será fácil de gerir.

E é isto, estamos ralados. Porque não queremos que o primeiro impacto na escola seja negativo. Porque não queremos que ela sinta a frustração que vai sentir porque nem a educadora nem as outras crianças a vão perceber. Porque sabemos como isso a incomoda e isso mexe connosco. Porque não sabemos como é que ela vai reagir a esta frustração, qual o impacto que vai ter e como/se a afectará.
Já estamos a fazer o nosso trabalho de casa para minimizar tudo isto, mas isso ficará para outro post porque este já vai longo.

Ai, isto de ser pais de primeira viagem tem destas coisas. Acho que para aí ao 10° filho já não me devo ralar nada com estas coisas e até devo mandar o puto para uma escola russa mesmo que ele mal amanhe português. Mas por agora, acho que temos o direito de nos ralar com qualquer coisa com a entrada na nossa única filha na escola. E olha, ralamo-nos com isto. Podia-nos ter dado para pior. :)






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