19.10.17

O feitio é do pai

O Jack é das pessoas que conheço com maior dificuldade em pedir desculpa. Chocamos imenso nisto porque a mim custa-me pouco, mesmo quando teimei com algo que venho depois a descobrir que estava errada. Lá engulo o orgulho, admito o erro, peço desculpa e por isso gosto que façam o mesmo comigo. Já o Jack engonha, tenta arranjar razões e justificações, inventa uma série de coisas, anda ali às voltas até me deixar doida.
No outro dia, a Mini-Tété fez uma asneira que sabe bem que não deve fazer. Fizemos cara séria, voltámos a explicar porque razão não deve fazer aquilo e insistimos que pedisse desculpa. Olhos no tecto, olhos no chão, olhos na mão, tira sapato, vai buscar um peluche, tenta cantar, enfim, tudo e mais um par de botas a ver se fugia ao pedido de desculpas. Após alguma insistência, lá percebeu que não tinha outro remédio e resmungou um "desculpa" entre dentes. 
Mandei a boca ao Jack:
- Sai mesmo ao pai dela, não sai?
- Não.
- Como assim?!
- Eu nunca teria cedido e pedido desculpa.

Já não me bastava um em casa, agora tenho dois.

15.10.17

2 anos

Há dois anos rebentaram-me as águas de uma forma tão discreta que eu duvidei mesmo se estaria de facto a acontecer ou não. Tinha sido uma gravidez tranquila, sem grandes sobressaltos, nada de contracções de treino, dores ou incómodos. Andava como sempre, apenas com um barrigão que não enganava ninguém. O parto foi simples, discreto, em 5 minutos estava cá fora desfazendo as minhas ideias de que se tem de estar ali a fazer força durante horas até se ficar exausta. Eu devia ter adivinhado que tal entrada neste mundo me traria uma bebé assim, calma, discreta e fácil. Este último ano passou a correr, parece que foi ontem que estava a olhar embevecida para a minha bebé de 1 ano e hoje ela já faz 2. É cada vez menos uma bebé e eu acho que não lido lá muito bem com isto. Nunca tive pressa para nada com a Mini-Tété, nem para que ela nascesse, nunca a forcei a nada, nunca quis que ela aprendesse isto ou aquilo já e agora, nunca ansiei que ela começasse a comer sopas, a falar ou andar, porque sempre soube que estas coisas chegariam a seu tempo e eu sempre quis aproveitar bem cada dia com ela. Ainda assim o tempo passou mais depressa do que eu gostaria.

Com dois anos, que posso eu dizer desta minha princesa?

- Que continua igual a si mesma: calma, discreta e fácil. Ainda não faz grandes birras. E deu-me 3 meses de más noites de sono que acabaram no momento em que começou a conseguir dar alguns passos agarrada às nossas mãos e que consegui ajudá-la a reduzir as duas sestas diárias para apenas uma.

 - Continua a comer a sopa sem grandes problemas e passou a interessar-se pela nossa comida.

- Passou de dizer um batalhão de palavras para dizer mil batalhões de palavras. E canta, e tenta contar histórias, e faz frases e perguntas, e fala comigo, fala sozinha, fala com os bonecos, e fala, fala, fala.  Tenho amigos aqui em França fascinados com o facto de uma piralha deste tamanho conseguir dizer tão bem o nome deles. Já disse que há dias em que ela não se cala?

- Começou a andar quando tinha 1 ano e 8 meses e meio, fazendo-me perder a aposta de que só começaria a andar agora, aos 2 anos. Com isto, segui pela primeira e única vez o meu instinto de mãe que me dizia que estava tudo bem com ela e que não valia a pena stressá-la com consultas e exames, mesmo sabendo que grande parte da literatura põe como limite o ano e meio, mesmo ouvindo constantemente opiniões sobre o assunto. Estava certa e é difícil explicar a paz que sinto por saber que não a pressionei para que andasse antes de estar pronta.

- Conseguimos cumprir os meus 2 objectivos para este 2° ano de vida dela. Um deles é minimamente controlável e passa por não lhe termos dado ainda chocolates, bolos, gelados e afins. O outro é pura sorte (tenho noção disso, não é de todo mérito meu) e é simplesmente ter passado mais um ano sem ter ficado doente ao ponto de ter precisado de antibióticos.

- Tem uma motricidade fina que acho espectacular (anda agora a tentar comer de faca e garfo) mas a nível de coordenação motora...digamos que infelizmente sai à mãe. É desengonçada a andar, ainda não sabe correr nem saltar embora tente. Desce e sobre degraus de mão dada (e ainda bem porque se assim não fosse já se tinha partido toda algumas vezes). Até mesmo a gatinhar não faz a mais pequena ideia como coordenar braços e pernas sem se arriscar a ir com um queixo ao chão. Vantagem: ainda não trepa para cima dos móveis e é um descanso. Nem foge de mim na rua (e se tentar é fácil de apanhar).

- É extremamente preocupada com a segurança. Faz questão de saber que temos o cinto quando vamos a andar de carro, os bonecos no carro também têm de ir com o cinto, na rua faz questão de ir de mão dada comigo, ralha comigo quando subo para cima de um banco, avisa-me que o forno está quente e que as escadas são perigosas. Esta semana ao jantar, espetou o dedinho e disse-me "Mamã, mastiga bem". 

- Aprendeu a dar beijinhos! E está um pouco mais carinhosa. Eu mereço depois de quase 2 anos a ouvir as outras mães a falar dos carinhos dos filhos e a ter uma filha pouco amante de contacto humano.

- É extremamente curiosa em relação às outras pessoas, ouve as conversas alheias todas e imita tudo o que fazemos, mesmo que tenham sido simples gestos que duraram um segundo. 

- Passou finalmente a gostar do banho. Um dia terei de contar a história de como passámos da histeria absoluta por saber que tomaria banho daí a umas horas para pedir para ir para o banho e não querer sair de lá.

- Tem umas saídas e respostas muito giras que penso serem mais fruto da idade do que propriamente do sentido de humor. Se bem que às vezes tenho mesmo a sensação que está a gozar comigo. Espero que sim, que esteja, porque significa que tem o sentido de humor da minha família e isso é algo que eu gostaria mesmo que ela herdasse. Mesmo que nem todos o compreendam.

- É educadinha. Pede "se faz favor", diz "obrigada", pergunta se pode antes de fazer algumas coisas. E eu acho piada a que tão novinha tenha esta maneira de ser.

E por aqui poderia continuar. Poderia tentar descrever a gargalhada dela, a forma como deita a língua de fora quando está concentrada, o sorriso grande que faz, os caracóis sempre despenteados, a covinha na bochecha. A cada dia que passa tenho uma paixão cada vez maior por esta miúda que tive a sorte de ter como filha. É a minha bebé. E hoje faz 2 anos. ♥

12.10.17

Mãe distraída

Já atrasadas, visto o casaco à Mini-Tété, oiço-a dizer "sapatos". Visto o meu, procuro a carteira. "sapatos". Onde é que estão as chaves do carro? No bolso do casaco, na gaveta? "Sapatos". "Sim, querida, eu sei que tens uns sapatos muito giros, deixa a mamã só procurar as chaves...", ah, aqui estão elas, bolas falta o saco dela. "sapatos". Estará frio? Talvez seja melhor levar o gorro e o cachecol para ela. "sapatos". "Sim, já vamos sair à rua com os sapatos, espera um bocadinho". Tenho tudo? Telemóvel, lenços, chaves..."sapatos", "sim, eu sei, tens sapatos, queres levar um livro para o carro? Esse? Boa, vamos lá". Ai, espera, tenho de levar esta carta para os correios, deixa cá guardar. "sapatos". Abro a porta, ligo o alarme, pego-lhe na mão, saio e ela insiste:
- Mamã esqueceu sapatos da Mini-Tété!

Olho-lhe para os pés e só vejo efectivamente as meias. Às vezes penso que a Mini-Tété começou a falar cedo por pura necessidade de que eu a entendesse...

5.10.17

Ela. Num parque sem crianças.


Não sei se é um mal de França no geral ou apenas da zona onde moro, e não quero cometer o erro de ser generalista como se de uma estrangeira me tratasse acabada de chegar ao norte de Portugal e dizer que os portugueses dizem todos muitas asneiras ou acabada de chegar ao Algarve e dizer que em Portugal a água é sempre quentinha. Por isso, admito que não sei mesmo se é geral ou apenas daqui, mas é efectivamente a minha experiência pessoal. 

Na aldeia onde vivo existe um parque infantil. Onde nunca vi crianças. Passo por lá frequentemente, antes empurrando o carrinho de bebé e agora que levo a Mini-Tété para lá ir brincar. E nunca, mas nunca lá vi uma criança que fosse a brincar. Tenho de admitir que a primeira vez que lá levei a Mini-Tété ia com medo que a diversões já estivessem podres de tão pouco uso que se nota que têm. Para além do mais, alguém muito idiota achou que na zona ficavam bem alguns carvalhos o que faz com que nesta altura estejam constantemente a cair bolotas que por pouco não nos acertam. Na cidade mais perto, um outro parque onde nos últimos meses me cruzei apenas duas vezes com outras crianças. 
E se antes não reparava muito nisto, a verdade é que as férias em Portugal me chamaram a atenção. Os culpados foram os meus pais que encontraram um parque giríssimo* e para o qual levavam todos os dias a neta (e onde ela finalmente andou de baloiço, coisa que não existe em nenhum parque aqui). Num dos dias em que lá fui havia crianças por todo o lado, imensas mesmo, embora os meus pais tenham dito que às vezes eram menos e que noutras até turmas de escolas iam ali brincar. A Mini-Tété, apesar da sua veia anti-social, delirou e ainda hoje, um mês depois das férias, fala do parque onde estavam muitos meninos. Sim, senti o coração a apertar quando percebi que aqui a esperavam parques vazios.

Em passeios pela aldeia penso ter percebido qual a razão: todas as casas onde habitam crianças têm, no jardim, escorregas, baloiços, trampolins, balancés, etc, e por isso as crianças daqui não têm qualquer necessidade de ir para o parque pois têm o seu próprio prque infantil no seu próprio jardim. As que vivem em apartamentos ou não brincam ou vão até casa das crianças que os tenham, suponho eu. Já na cidade, onde este fenómeno não é tão existente, não encontro verdadeira razão. Existe um outro parque com 2 ou 3 diversões onde já percebi que alguns pais levam os filhos à saída da escola, e onde a Mini-Tété já pôde ver outras crianças. Ainda assim, não é nada comparado com aquilo que vi em Portugal.

Porque será? Não sei. Mas lembro-me de uma professora em Tours me ter dito que a vida das crianças em França era sempre casa-escola-casa, sem haver tempo para grandes amizades. Talvez isso explique os parques privados em casa, talvez os pais aqui não tenham tanta tendência a levarem os filhos aos parques. O clima não ajudará, é um facto, pois o bom tempo de Portugal leva a uma maior disposição a actividades ao ar livre. Não sei, não compreendo. Mas tenho pena. Porque ainda hoje a Mini-Tété me fala do parque com muitos meninos que viu em Portugal.

* Malta de Coimbra, o parque giro é nos prédios atrás do McDonalds da Solum. Está dividido por zonas, com diversões próprias para cada grupo etários, embora as crianças sejam livres de andar em todas as diversões. Muito giro e bem cuidado. Ficámos fãs.

2.10.17

Parabéns a mim!


Hoje faço 33 anos e é estranho como eu, que sempre adorei fazer anos, não andei propriamente entusiasmada com a ideia este ano. Geralmente começo em contagem decrescente uns meses antes e nas últimas semanas já ando assim um bocadinho doida com a chegada deste dia em que nem sequer faço uma grande festa ou nada de muito diferente mas que sinto como o Meu Dia, o dia em que nasci, um dia importante e a festejar. Mas este ano passei as últimas semanas até desanimada por não sentir a alegria normal que o meu aniversário me traz, com o Jack já a perguntar-me "Mas queres fazer algo diferente? O que gostavas mesmo de fazer para este dia?". Acho que os meus 32 anos se traduziram num ano bastante duro, com muitas coisas com que lidar, muitas surpresas e desilusões e suponho que seja daí que vem este sentimento de pouca esperança no novo ano em que entro hoje.
Maaaaaaaaas.....há que dar a volta isto. São os meus anos e eu mereço um dia bom (e já agora, um ano ainda melhor :D), mereço mimos, beijinhos, prendas e parabéns! E lembrar-me, como lembro todos os anos, que a razão pela qual gosto tanto de aniversários (no geral, não só do meu) é o facto de simbolizarem mais um ano de vida, mais um ano em que estivemos vivos para presenciar uma série de coisas, e que isto é uma benção enorme que todos temos. São os meus anos! :) Vá, toca a desejar-me um Feliz Aniversário porque eu mereço. :)

1.10.17

A minha filha é anti-social como eu


Quem me segue no facebook (se não seguem, não sabem o que perdem porque as maiores pérolas da Mini-Tété estão por lá) soube que há umas semanas tive o meu primeiro encontro social com outra mãe para que as respectivas bebés pudessem brincar. Na verdade, é uma mãe que mora na mesma rua que eu e cuja filha tem, se não me engano, 3 dias de diferença da Mini-Tété. Quem me conhece pessoalmente sabe que eu tenho uma veia anti-social enorme e por isso todas as células do meu corpo gritavam "Nãããããoooo" quanto a este encontro. A senhora é simpática, a filha é amorosa, o marido é simpático também mas eu tenho efectivamente um lado que me leva a querer viver numa gruta e a dar-me com o mínimo de gente possível. Bom, mas por um filho uma pessoa faz tudo e foi assim que eu me vi a aceitar um convite para uma hora de brincadeira num sábado de manhã. Sabe-se lá como convenci o Jack a ir comigo. Eu ia curiosa, admito. Às vezes oiço comentários sobre o facto da Mini-Tété, de quase 2 anos, estar em casa comigo, que se calhar fazia-lhe bem ir para uma creche, que ela devia brincar com outras crianças da mesma idade, que ela até tem curiosidade quando vê outras crianças no supermercado ou no parque...por isso queria ver o quanto esta sociabilização lhe faz falta. Não é que eu tenha a Mini-Tété trancada em casa todo o dia, vamos passear, vamos ao parque, se lá estiver algum bebé da idade dela, deixo-a conviver, no supermercado deixo-a aproximar-se à vontade das outras crianças que por lá estejam, mas a verdade é que a Mini-Tété nunca mostrou grande vontade de interacção, ficando muitas vezes apenas a observar os outros. Mesmo com esta nossa vizinha, a vontade de interagir é praticamente nula. A outra lambuza-a com beijos, fala com ela, oferece-lhe coisas, e a minha filha vira estátua e pisca apenas os olhos. A única reacção que já lhe vi várias vezes é o facto de ser um pouco Maria-vai-com-as-outras, no sentido de que as outras crianças pegam-lhe na mão, começam a andar e ela vai atrás, sem oferecer qualquer resistência. Por isso, como disse, estava curiosa.

Foi uma manhã bem passada a rirmo-nos de como é que duas crianças nascidas quase no mesmo dia podem ser tão diferentes. A bebé da vizinha simplesmente não pára um minuto, corre para todo o lado, sobe para o sofá, dança, espalha brinquedos. Já a Mini-Tété manteve-se igual a si mesma, sentando-se num pequeno sofá e dividindo a atenção entre observar a amiga que corria de um lado para o outro e ver um livro que lhe tinham emprestado. No fundo, mais do que ir brincar com alguém da idade dela, a Mini-Tété adorou o sofá. Chegava ao ponto de o arrastar sentada para conseguir chegar ao brinquedo que queria sem ter de levantar o rabo, porque mal o fazia a amiga sentava-se. E mal esta se levantava, a Mini-Tété aproveitava logo para ocupar o sofá. Foi um verdadeiro "quem vai ao mar, perde o lugar", que fez com que raramente estivessem as duas de pé. Com o nosso incentivo, ainda tentou dar abraços e festinhas à outra bebé mas esta não parava o suficiente para o conseguir, pelo que rapidamente desistia e ir explorar outros brinquedos. 

Não sei como é que se passam as coisas nas creches, não me vou pôr para aqui a inventar ou a fingir que sei, mas o que vi foram duas miúdas de quase 2 anos, que fora breves momentos de interacção, passaram a maior parte do tempo entretidas cada um com o seu brinquedo ou actividade. Combinámos voltar a encontrarmo-nos para repetir o momento, mas por enquanto acho que a Mini-Tété aceitaria viver numa gruta comigo.

30.9.17

Cinema

Aproveitamos sempre as férias em Portugal para ir ao cinema devido ao facto de aí os preços serem muito mais baratos do que aqui em França. Assim, desta vez aproveitámos para ver estes quatro filmes:

Baby Driver
Se não me engano começámos por este. Eu ia sem grande vontade a pensar que era apenas mais um filme de carros mas estava enganada e gostei bastante. 


O Guarda-costas e o Assassino. 
Só o trailer já me tinha feito esboçar um sorriso mas ainda assim lembro-me de comentar com o Jack que só esperava que não fosse mais um daqueles filmes em que as partes engraçadas estão todas no trailer. Não estão e o filme é verdadeiramente engraçado. Por toda a sala ouviam-se gargalhadas e o Jack ao meu lado torcia-se de riso. Este é daqueles que aconselho se ainda estiver nas salas de cinema.



Wind River.
Pelo trailer parecia muito o nosso estilo de filme. E foi, uma morte, suspense, investigação, mas saímos de lá com o coração apertado. A forma animalesca como alguns homens olham para as mulheres é assustadora e arrepiante e estivemos a falar disto durante horas depois do filme acabar. 



Sorte à Logan. 
A melhor descrição que posso fazer deste filme é que ele é tão parvo mas tão parvo, tão parvo, que chega a ser bom. E o final é inesperado, o que dá ali um gostinho ainda melhor ao filme. Mas é um filme parvo que me fez pensar vezes sem conta como é que os actores aceitaram fazê-lo. Não acho que valha a pena vê-lo no cinema. É mais o tipo de filme que se vê num domingo à tarde de chuva, no sofá com uma manta e umas pipocas a acompanhar. 

21.9.17

As férias da Mini-Tété

- Dormiu durante todo o voo a caminho de Portugal.
- Fez uma festa quando viu os avós à nossa espera.
- Foi a um casamento onde depois de se fazer ouvir bem duas vezes durante a cerimónia, se aborreceu e dormiu o tempo todo enquanto o padre falava.
- Foi à praia, odiou a areia e o mar. Chorou por ter as mãos "sujas" de areia. Ensinámos-lhe a limpá-las à t-shirt. Chorou por ter a t-shirt com areia. Todos os dias lá voltámos e ao fim de uma semana já aceitava chapinhar no mar e "sujar" pedrinhas com areia para logo de seguida as lavar num balde de água. Mas sempre bem posicionada em cima da toalha não fosse algum pedacinho de pele, que não a ponta dos dedos que seguravam as pedrinhas, ficasse com areia.
- Ainda não tinha passado uma semana de férias, quando começou a pedir para voltar para a casa dela e para a cama dela. Percebemos que nunca lhe tínhamos explicado o que eram férias, que era temporário e que, na sua cabecinha, ela tinha sido simplesmente arrancada das rotinas dela e das coisas dela para sempre. Quando lhe explicámos que eram só uns dias de férias e que depois voltaríamos, acalmou. Não disse a ninguém, mas passei as férias a pensar o quão doloroso deve ser para as mães que são obrigadas a fugir das suas casas com os seus filhos e vê-los a pedir para regressarem, sabendo que nunca lhes poderão dizer que isso vai acontecer.
- Comeu sardinhas como gente grande, salmão, arroz de polvo e de peixe, comeu uvas e pêssegos sem fim, até favas provou. Comeu com todos os avós, comeu em restaurantes, comeu com amigos. Comeu comida italiana e chinesa. E engordou. E cresceu. E estes dias de regresso têm sido uma verdadeira provação pois chega a muitos mais sítios que antes não chegava e a casa não estava preparada para isso (nem eu).
- Viu o rio com os avós, o mar com outros avós, viu cavalos, vacas e ovelhas, bem pertinho. Deu comida às galinhas e tentou apanhá-las. Esteve com os três bisavós. Viu um moinho que o bisavô construiu e tocou na farinha de milho que ele estava a fazer. Foi mimada até mais não.
- Chorou de todas as vezes que tomou banho. Teve pesadelos nas noites de sono e nas sestas. Dormiu muitas sestas connosco. Outra vezes, dormia ela e um de nós velava-lhe o sono, para a acalmar quando acordava assustada.
- Falou, falou, falou e encantou avós e bisavós. Já à frente dos amigos dos pais, manteve-se calada ou de poucas palavras, fazendo-nos quase ganhar a fama de mentirosos depois de tanto dizermos que até frases já faz.
- Esteve com outras crianças, primos e amigos, foi ao parque quase todos os dias com os avós, andou de escorrega e baloiço e nos últimos dias já sussurrava para as outras crianças "Como te chamas?", tão baixinho que elas não a ouviam mas sem dúvida um passo enorme para minha pequenina anti-social.
- Comeu muita comidinha boa feita pelos avós e bisavós, mas todos estes se portaram bem e resistiram à vontade de lhe dar gelados, chocolates, bolos e outras guloseimas, como os pais pediram. Para o ano já lhes devemos fazer a vontade. Logo veremos, não é daquelas coisas que se planeie.
- Adorou as idas ao café depois do almoço e mal acabava de comer já pedia para ir.
- As saudades de casa foram sempre muitas, mas agora que regressou vai pedindo coisas que teve nas férias e que aqui não tem. É sinal que gostou, esperamos nós.