15.6.20

Reviravolta

E eis que o Presidente da República decide dar uma reviravolta à vida de toda a gente e anuncia ontem que as escolas abrem todas normalmente e obrigatoriamente já na próxima semana. E eu tenho o coração aqui num limbo, sem saber se contrai ou descontrai com tal notícia.

Por um lado, imagino o trabalho que vai existir em tantas escolas, depois de terem sido esvaziadas, de voltarem a preparar tudo para receber novamente o número normal de alunos. E para apenas mais duas semanas de escola. Imagino as dúvidas que vão existir e que terão de ser resolvidas já esta semana. Abrirão as cantinas novamente?
Imagino os pais e as crianças que já se tinham organizado e preparado mentalmente para não haver mais escola este ano e vêem-se agora a braços com esta nova decisão. Mesmo nós tomámos decisões para as férias, contando que o ATL não estivesse 100% operacional, que não poderão ser alteradas e que não sei se à nova luz dos acontecimentos serão as correctas. 
E se já não compreenderia muito bem que em Setembro tudo estivesse normal quando dois meses antes as regras eram tão apertadas, imaginem o meu estado de incompreensão com esta medida. Se daqui a uma semana as crianças vão todas regressar normalmente à escola, por que raio a minha filha e tantas outras crianças tiveram de passar por um ambiente de regras tão restritas e desagradáveis até esta semana? Não entendo este passar do 8 para o 80.

Por outro lado, sinto-me aliviada. Mesmo sabendo que será um regresso total, indo todos os dias à escola, acho que custará menos se puder ver a sua educadora, os seus amigos, se poder brincar com eles. Enfim, veremos porque hoje já vieram dizer que cada criança deve manter a distância de 1 metro das restantes, o que, cá entre nós, não me parece ser viável numa escola com dezenas de alunos por sala. Mas acho que ainda assim o ambiente será melhor do que aquele que vive neste momento e isso deixa-me o coração mais leve.

Mas aguardemos. Dada a qualidade da comunicação que este governo tem demonstrado desde que tudo isto começou, ainda pode acontecer amanhã vir o primeiro ministro dizer que afinal as escolas vão mas é fechar todas novamente.

11.6.20

Junho com o coração do tamanho de uma ervilha

Este mês a escola da Mini-Tété abriu novamente as portas, embora com dois grupos muito reduzidos de crianças dado a exigência do protocolo sanitário, distribuindo assim as crianças pelos vários dias do mês. Isto levou a que a escola aceite a Mini-Tété...dois dias. Sim, dois dias neste último mês de escola.

Não vou ser hipócrita e dizer que a queria a ir todos os dias para a escola. Não queria. Depois de dois meses e meio em casa e sabendo eu as condições que a esperavam, não queria mesmo que houvesse um regresso tão drástico. Mas já me estava a preparar mentalmente para que ela fosse pelo menos dois dias por semana de forma a que eu pudesse regressar ao trabalho (lentamente, é certo). Ir apenas dois dias num mês à escola parece-me simplesmente...parvo e sem qualquer propósito. Socializar com as outras crianças? Farão dois dias num mês realmente diferença? Impedir o abandono escolar? A sério? Dois dias de escola vão impedir o quê? Retirar as crianças de lares violentos ou stressantes? Dois dias num mês vão realmente fazer a diferença para estas crianças? Promover o regresso dos pais ao trabalho? Deviam ter visto a cara do patrão quando lhe foi anunciado que eu só trabalharia dois dias este mês (eu ajudo: não ficou propriamente encantado...). Parece-me por isso terrivelmente desnecessário toda a preparação da escola e toda a organização que foi necessária fazer para as crianças irem apenas dois dias. Mais valia não abrirem. Não entendo. Ou melhor, entendo, desta forma o Ministro da Educação pode dizer alegremente que todas as crianças tiveram acesso à escola este mês (mesmo que tenha sido apenas uma ou duas vez). 

Entretanto, conseguimos organizarmo-nos com o ATL e os vizinhos para que eu pudesse ter mais uns dias livres para regressar ao trabalho, o que é sem qualquer dúvida um sentimento agridoce. Eu não estava propriamente farta de estar em casa com a Mini-Tété, esta foi a nossa vida durante anos, sabemos vivê-la sem grandes percalços. Por outro lado, estava sem dúvida a sentir falta de trabalhar, até porque gosto do que faço, e faz-me bem à cabeça sair de casa e ser útil noutro papel para além de o de mãe Digo e repito: acho que a situação ideal para mim era um part-time bem pago. :D

O regresso ao trabalho não me custou particularmente mas acho que nunca chorei como tenho chorado ao deixar a Mini-Tété, também a chorar, na escola ou no ATL. E em minha defesa, o ano passado a Mini-Tété deixou apenas de chorar ao ir para a escola quando faltava um mês para a escola acabar e mesmo assim eu deixava-a de cabeça tranquila (e coração apertado porque não sou uma pedra), sem lágrimas, porque sabia que era apenas uma questão de tempo até ela perceber que a escola podia ser um sítio bom e divertido, e que ela ficava bem entregue, num sítio onde cuidariam bem dela. Agora...quase todas estas premissas falham, porque não é suposto eu deixar a Mini-Tété num sítio onde é recebida por adultos de máscara que ela não reconhece (ou mesmo não conhece de todo) e a assustam, onde não está a sua educadora, onde não estão os seus amigos (os grupos diários de 6 crianças incluem várias idades e turmas), onde vai passar o dia sozinha sentada a uma mesa, de costas para as outras crianças, numa sala onde os brinquedos e livros que ela gostava desapareceram, onde leva o seu almoço, onde brinca sozinha no recreio, onde mal consegue comer seja o que for com o nervos. Caramba, é violento. Para ela e para mim, que me sinto a falhar com quem não o deveria fazer. Acho que dificilmente me esquecerei rapidamente do caco que fico e do ar de pânico da minha filha quando a deixo. É tudo uma grande bosta, é o que é.

Logo no início do mês, a Associação de Pais partilhou umas fotografias a mostrarem como estava a "nova" escola, com as parcas mesas e cadeiras dispostas nas salas vazias, os autocolantes nos bancos corridos indicando onde as crianças se devem sentar para se manterem afastadas entre as elas, e toda uma série de coisas com o objectivo de acalmar o coração dos pais. Mas o meu, ao ver tudo aquilo encolheu-se no tamanho de uma ervilha e acho que ainda não voltou ao seu tamanho normal. Talvez em Setembro volte. Mas depois penso que se em Setembro a escola abrir normalmente, com todas as crianças ao molho, com tudo como era antes, então será que faz sentido dois meses antes estar a obrigar as crianças a passar por um protocolo sanitário tão apertado que não lhes traz propriamente nem educação nem felicidade?

Felizmente, nem todas as crianças e respectivos pais se sentirão assim. Felizmente, para alguns isto é mais fácil ou as condições escolares serão outras. Quando a vamos buscar, a Mini-Tété vem com um sorriso, há dias que coincidem com a ida da vizinha e sei que as deixam almoçar ou estar à mesma mesa porque os avisámos que as duas estão em contacto diário. Acredito que nem tudo será mau, não imagino a escola transformada num inferno, simplesmente não é a escola como deveria ser e isso não ajuda a acalmar todos os corações. Sei que não sou a única a pensar assim, quer a educadora da Mini-Tété, quer as funcionárias do ATL, quer as funcionárias da escola não hesitam em dizer que "aquilo" não é a escola/ATL e que é duro para as crianças.

E para já resta apenas enxugar as lágrimas (as minhas e as dela) e pensar que tudo isto vai passar. E que vai ficar tudo bem.

[Claro que seria pior se a Mini-Tété estivesse doente, claro que seria pior se ela fosse todos os dias nestas condições, claro que seria pior eu ter pedido o emprego...sei tudo isto. Mas saber que podia ser pior do que é não faz com que eu me sinta feliz por aquilo que tenho de mau. Só porque podia ser pior.]




25.5.20

O que se aprende no jardim-de-infância?

Assumo que sempre achei que quando a Mini-Tété entrasse na escola com 3 anos, no pré-escolar (jardim-de-infância), ia basicamente passar o tempo a fazer desenhos, a pintar com os dedos, a cantar músicas com sons de animais e coisas que tal. Imaginem portanto o meu espanto quando a vi logo no primeiro ano a saber escrever o seu nome em maiúsculas. E a copiar sem grandes problemas qualquer palavra em maiúsculas que lhe puséssemos à frente. Tinha deixado na escola a minha bebé e de repente devolviam-me uma criança crescida capaz de reconhecer letras e de as copiar ou até mesmo escrever sozinha o seu nome.

Este ano está no segundo ano (na turma dos 4 anos, portanto) e à conta do coronavirus está quase há 2 meses e meio em casa, a fazer as coisas que a educadora indica para cada dia e há momentos em que dificilmente controlo abrir de boca de espanto. Já consegue olhar para os dias da semana e "ler" cada dia (não lê obviamente, mas reconhece que aquele conjunto de letras significa "samedi" [sábado], por exemplo). Sabe todo o alfabeto em maiúsculas, reconhecendo cada letra. Sabe todo o alfabeto em minúsculas reconhecendo cada letra. Estamos agora a trabalhar palavras que tenham o mesmo som e as diferente maneiras como se escreve esse som. Escrevo palavras em minúsculas que ela reescreve em maiúsculas sem qualquer dificuldade. Todos os dias há exercícios de grafismo (ondas, espirais, etc) para treinar a mão para a caligrafia do próximo ano. Conta até 29. Escreve bem os números até 19 quando ditados de forma aleatória. Já faz contas de somar! Preenche tabelas de dupla entrada! Indica a primeira letra ao ouvir algumas palavras. E daqui a um mês deverá ser capaz de fazer a correspondência entre as fotografias dos seus coleguinhas de turma e o seu nome escrito.

E eu acho tudo isto fantástico. Depois penso que no colégio onde andei, aprendi a escrever e a ler no último ano do pré-escolar (turma dos 5 anos), ou seja, era apenas um ano mais velha que a Mini-Tété e por isso com a idade dela se calhar até já fazia tudo isto e simplesmente não me lembro. Não faço qualquer ideia do programa escolar português neste momento (nem o daqui sabia, quanto mais...) nem mais precisamente o que aprendem as crianças no jardim-de-infância. Nunca pesquisei. Tenho quem me diga que aprendem o mesmo que aqui, tenho quem me diga que não é assim de  todo. A escolaridade em França não é levada da mesma forma que em Portugal, e se nalgumas coisas será melhor, noutras é francamente pior. Mas nunca comparei os programas lectivos por isso não tenho qualquer ideia.  Por isso, digam-me: o que aprendem as crianças no jardim-de-infância em Portugal? É assim? É mais brincadeira? Aprendem outras coisas?





12.5.20

Os argumentos da abertura das escolas

Amanhã, cerca de um milhão e meio de crianças regressará aos jardins-de-infância e às escolas primárias. Não a Mini-Tété, cuja escola, perante a necessidade e/ou vontade de mais de 30% dos pais em colocar os seus filhos na escola, decidiu que não seria possível abrir este mês cumprindo todas as normas que o novo protocolo sanitário exige. E eu, depois de saber desta decisão, dormi finalmente melhor depois de dias de insónias, aliviada por não ter de escolher já entre prejudicar o meu emprego ficando em casa ou enviar a minha filha para um sítio mais parecido com uma prisão do que com uma escola.

Mas depois as insónias apareceram outra vez ao pensar neste milhão e meio de crianças que regressará amanhã à escola e como viverão tudo isto. Espero que rapidamente se perceba que a sanidade mental das crianças também tem de ser considerada, que o seu gosto pela escola deve ser cultivado e não pisado, e que na teoria todas as medidas podem ser as melhores mas na prática simplesmente não são funcionais. Espero que, quando a escola da Mini-Tété se organizar e abrir, já algumas coisas tenham mudado.

Irrita-me sobretudo ouvir o governo argumentar sobre este regresso à escola. Saem-lhes argumentos brilhantes como:
- "As crianças precisam de socializar". Pois precisam. Concordo. Aliás, o objectivo dos jardins-de-infância é sobretudo esse. Mas todas as medidas do protocolo sanitário foram criadas exactamente para a não socialização das crianças, de forma a evitar a transmissão do vírus. Por isso, não, regressar à escola não promoverá esta necessidade.
- "As escolas vão abrir para evitar o abandonar escolar". A minha filha tem 4 anos. Quatro anos. Por ela nunca mais voltava à escola, adora estar em casa, só quer poder brincar com a vizinha e o mundo fica perfeito. Entrou na escola há menos de um ano e meio, depois de 3 anos em casa comigo, ainda nem tinha criado verdadeira ligação à escola para sentir que esta se está a perder. E depois, abandono escolar no jardim-de-infância? A sério? Imagino mesmo que à conta desta quarentena teremos uma série de miúdos rebeldes de 3 e 4 anos a escapar-se às aulas para irem fumar coisas para trás do pavilhão desportivo. Mas com sorte, este regresso escolar conseguirá evitar tal desgraça! Haja paciência. 
Ou a mais recente do Ministro da Educação:
- "Há mais riscos ao ficar em casa do que em ir à escola". Por favor, alguém explique ao senhor que se assim fosse não haveria razão para as escolas terem fechado e toda a gente estar fechada em casa há quase 2 meses. Mas expliquem de-va-ga-ri-nho já que claramente há coisas que ultrapassam este senhor.
A verdadeira razão desta abertura escolar passa obviamente pela necessidade que há de os pais regressarem aos seus trabalhos, pela saúde da economia doméstica e do país. E eu entendo este argumento, não há como não entender, ninguém quer famílias a passar fome à conta deste vírus. Mas mais uma vez isto funciona na teoria, porque depois na prática tudo se esbardalha ao comprido. Devido às medidas do protocolo sanitário, o número de crianças por sala é verdadeiramente reduzido (na escola da Mini-Tété e em muitas outras, só podem ir 5 ou 6 crianças por sala), o que obriga a que haja rotatividade de grupos de alunos para que todos tenham acesso à escola em dias diferentes. Por isso, são várias as situações em que as crianças irão dois dias por semana à escola, se não apenas um dia. Ou uma vez em quinze dias. Em que é que isto ajuda os pais a retomar o emprego? A ganharem o seu salário? E não resisto a perguntar: em que é que isto ajuda à famosa socialização das crianças e à resistência ao abandono escolar? 
Mas, mais uma vez, para o senhor Ministro da Educação, tudo está bem. O seu objectivo é que até ao final do Maio todas as crianças possam ter ido à escola pelo menos um dia. Entendo-o, assim poderá subir ao púlpito e anunciar orgulhosamente que conseguiu criar condições para que em Maio todas as crianças regressassem à escola (só um dia mas isso é segredo, shiuuuu). Faltam-me estudos para este tipo de raciocínio.

Sei que estas medidas chegaram em parte a Portugal, aplicadas para já às creches. Sinceramente, se acho complicado quando falamos de crianças de 3, 4 e 5 anos, parece-me simplesmente impossível para crianças abaixo dos 3 anos. Mais uma vez, entendo a necessidade de se abrirem escolas e creches, entendo a necessidade de medidas que evitem a propagação do vírus, mas não entendo como é que as querem fazer aplicar a crianças tão pequenas, criando um clima de stress e ansiedade que a elas lhes fará pior que este maldito vírus. Não é fácil ser pai numa altura destas e custa-me ainda mais ver que, não fosse tudo isto suficiente para criar insónias a muitos, ainda se cria um clima de culpabilização ao estilo de "os pais que se preocupam ficam em casa com as crianças, os que não querem saber mandam-nos para a escola". Tudo isto já não é fácil, tenham mas é juízo e parem com os julgamentos.



5.5.20

Não sou capaz de entender

Eu espero daqui a uns anos estar a rir-me disto. Espero daqui a uns anos achar que não tinha razão, que na minha cabeça tudo era pior do que realmente foi. Espero daqui a uns anos poder falar disto sem a bola de ansiedade que se parece ter instalado na barriga, no coração, na cabeça e em cada cantinho do meu corpo (que não é pequeno).

Ontem a câmara municipal partilhou com os pais as medidas gerais a tomar de um extenso protocolo para o regresso das crianças à escola. Não vos vou maçar em demasia. Direi apenas que na escola da Mini-Tété só aceitarão 5 ou 6 crianças por sala. Que retirarão os brinquedos, a cozinha, a estante dos livros, os diferentes "cantinhos de brincadeira" a que as crianças estavam habituadas a ir ao poderem circular livremente pela sala. Porque agora não poderão. Agora terão uma mesa (sempre a mesma) para cada criança, onde passarão o dia. Onde poderão até a vir a ter de almoçar. Não poderão brincar com as outras crianças ou aproximar-se. No recreio não terão acesso às bicicletas, nem às bolas nem aos carrinhos com que costumam brincar. Também não poderão ir até à pequena cabana ou à ponte de brincadeiras. Ah, e claro, não poderão brincar umas com as outras nem aproximar-se. Expliquem-me por favor, porque a minha inteligência não chega definitivamente para tanto, a que é que estas crianças vão brincar, cada uma isolada na sua área de x metros quadrados, sem amigos ou brinquedos? A minha filha é imaginativa, vejo-a a criar mil e uma brincadeiras no seu pequeno espaço exterior mas ainda assim precisa de paus de giz para fazer desenhos ou de pedras para criar histórias. Não entendo. Terão de lavar as mãos à chegada, antes do recreio, depois do recreio, antes de comerem, depois de comerem, cada vez que se assoarem...Terão de ser absolutamente autónomos a calçarem-se e a vestirem-se porque não deverão ter ajuda. A educadora terá uma máscara e deverá evitar aproximar-se.

Há mais medidas. E não é um problema da escola da Mini-Tété, nas outras será assim também. Já ouvi que haverá escolas que retirarão as sestas às crianças por não ser possível respeitar as distâncias entre as pequenas camas. Poderão repousar a cabeça sobre os braços na mesa onde passarão a grande maioria do dia.

Eu entendo que as escolas tenham de abrir porque os pais precisam de regressar ao trabalho para ganhar dinheiro. A sério que entendo. E também entendo que têm de haver medidas porque se não o vírus irá propagar-se à velocidade da luz. A sério que entendo. Mas o meu entendimento acaba aqui quando de repente o sítio onde terei de deixar a minha filha se parece com tudo menos com uma escola...E ela tem apenas 4 anos. 

3.5.20

Para não nos esquecermos

Esta ideia não é minha, vi partilhada numa página de facebook de uma familiar e achei que seria uma boa ideia fazer um post semelhante por aqui.

Quando 2020 começou, ninguém pensou que meses depois estaríamos nesta situação, com tanta gente em casa, com escolas fechadas, com trabalhos em risco. E quando tudo isto passar (porque vai passar) bastarão alguns anos para que muitos de nós mal se lembrem de tudo o que viveram. Quando, daqui a muitos anos, tentar contar à Mini-Tété como foram estes meses, haverá lapsos, não me lembrarei de tudo e será mais difícil descrever o quadro geral, até porque a minha experiência não é a mesma dos meus vizinhos, nem a destes é igual à dos amigos. Cada medida afecta-nos de forma diferente e cada um de nós terá as suas próprias lembranças desta situação. Por isso, fica aqui registado o estado do país (França) e do mundo, no dia 1 de Maio de 2020, sexta-feira. A lista é longa e poderá ser actualizada (se quiserem participar, considerem-se convidados).

- O isolamento social começou oficialmente numa terça-feira, dia 17 de Março, às 12h00. Há 46 dias.

- As escolas fecharam dia 16 de Março e no fim-de-semana que precedeu esta segunda-feira, muitas pessoas já não saíram de casa. Há 49 dias.

- Com as escolas fechadas, o ensino tem sido mantido on-line. No caso da Mini-Tété, recebemos e-mails com as fichas a fazer e com os objectivos de aprendizagem que faltam cumprir para acabar o programa escolar. Depois das férias da Páscoa (Abril), a educadora criou um calendário semanal com os trabalhos diários a executar e enviou-nos de uma só vez todos os documentos necessários até ao final do ano lectivo. Partilhamos os exercícios feitos com fotografias e recebemos a indicação se está bem ou se é preciso trabalhar algo em específico.

- Todos os comércios fecharam com excepção das bombas de gasolina, tabacarias, estabelecimento de consumo alimentar (mercearias, supermercados, hipermercados, padarias, frutarias..), farmácias e bancos.

- Nestes, há linhas nos chão para que se formem filas com as pessoas afastadas 1 metro umas das outras.

- Os cabeleireiros e manicures fecharam para grande desespero de muita gente. Eu pinto o cabelo em casa por isso não entrei em pânico. E decidi fazer a experiência idiota de não o pintar enquanto durar o confinamento para ver qual a percentagem de cabelos brancos que realmente tenho. Estou velha, é tudo o que tenho a dizer e não vamos mais falar sobre isto.

- Os restaurantes fecharam. Há quem faça entregas em casa ou permita ir buscar. Quando, em Abril, alguns McDrive (serviço Drive do McDonald's) abriram, formaram-se filas de 3h de espera. A mim também me apetece um McChicken mas não tanto.

- Parques e praias estão interditos. Os parques infantis também.

- As competições desportivas foram canceladas.

- Os festivais de Verão foram cancelados.

- As igrejas e outros locais de culto fecharam.

- Para sair de casa, precisamos de preencher um atestado indicando se a) vamos trabalhar, b) vamos fazer compras de bens de primeira necessidade (comida, medicamentos...), c) vamos sair por motivos de saúde (p.e. ir ao médico), d) vamos sair por motivos familiares inadiáveis (como um funeral), para assistência a pessoas vulneráveis ou guarda de crianças, ou e) vamos fazer saídas curtas, ligadas a actividade física individual ou a necessidades de animais de companhia. Se não é para nenhuma destas coisas, fica-se em casa.

- A partir do dia 23 de Março, para exercício físico individual ou passear com as crianças, passou apenas ser possível uma vez por dia, durante uma hora, num raio de 1 km. No atestado passámos a ter de escrever a hora de saída de casa.

- Casamentos, celebrações familiares e festas de aniversário foram canceladas.

- Só podem estar presentes 20 pessoas nos funerais.

- Bebés e crianças pequenas não compreendem muito bem porque é que só podem ver os avós e outros familiares e amigos através de um ecrã ou de janelas.

- Não se dão abraços e beijos. Nem apertos de mão.

- As pessoas devem manter-se afastadas umas das outras no mínimo um metro.

- Não há máscaras e luvas suficientes nos hospitais.

- Há menos ventiladores do que deveria haver.

- As pessoas passaram a usar máscaras e quando entrarmos na fase de desconfinamento haverá locais onde será obrigatório o seu uso.

- Nos primeiros dias, o papel higiénico esgotou em quase todo o lado. O gel desinfectante também. E as massas. Agora também é difícil encontrar sabão para as mãos. E farinha, porque toda a gente quer fazer pão em casa. Mas já há papel higiénico.

-  Nalguns comércios, foram criados horários de entrada específicos para pessoas de risco.

- Em muitos comércios, foram colocados painéis de acrílico entre os funcionários e os clientes. Um pequena abertura permite os pagamentos.

- Em caso de suspeita de contágio, não devemos ir para as urgências. Ligamos para que nos seja feita uma teleconsulta ou para que um médico nos receba. Idas ao hospital ou chamadas para o 112 ligadas aos coronavírus apenas em caso de dificuldades respiratórias. Apenas são testados os doentes que apresentem sintomas agudos ou os doentes hospitalizados por outras patologias e que apresentem sintomas do coronavírus. Dizem que a partir do dia 11 de Maio, as pessoas que apresentem sintomas ou que tenham estado em contacto com pessoas contaminadas também serão testadas.

- O aeroporto de Orly fechou no dia 31 de Março.

- Um pouco por todo o mundo, às 20h, batem-se palmas aos médicos e pessoal hospitalar que luta para salvar vidas. Também há concertos e brindes de janela para janela.

- Há concertos online, visitas a museus online, espectáculos de humor online, aulas online de yoga, pilotes, aeróbica, zumba, etc...

- Com as escolas fechadas, os pais (ou apenas um dos pais) com filhos até aos 16 anos passaram a poder ficar em casa com eles. Em Portugal, é até aos 12 anos. Muitos destes pais estão em teletrabalho. Palminhas para eles e que todos cheguem ao fim disto com alguma sanidade mental.

- Teoricamente, o desconfinamento começará dia 11 de Maio. A partir de 30 Abril e durante 7 dias, um mapa de França com as regiões pintadas de verde, laranja ou vermelho é exibido ao país. A 7 de Maio, um único mapa apenas com as cores verde e vermelha será mostrando, informando assim quais as regiões onde a circulação do vírus e/ou a saturação dos serviços de reanimação é menor ou maior respectivamente, dependendo disto as diferentes medidas de desconfinamento que serão aplicadas. Nós estamos numa região vermelha, pelo que as medidas poderão vir a ser mais restritas do que o plano apresentado para já para as regiões verdes.

- As Universidades só abrirão em Setembro.

- A 11 de Maio as creches, jardins-de-infância e primárias abrirão, com turmas não superiores a 15 alunos e um protocolo sanitário difícil de executar. Ninguém percebe muito bem como é que isto se vai passar, com crianças a 1 metro umas das outras, com máscaras a serem usadas por crianças acima dos 6 anos, com desinfecções constantes, entre outras medidas. Os ciclos e liceus dependem dos valores de circulação do vírus. 

- Até este dia, em todo o mundo, foram contabilizados mais de 233000 mortas por coronavírus. Cerca de 3.24 milhões de pessoas foram diagnosticadas portadoras do vírus. Nos Estados-Unidos, já morreram mais de 63000 pessoas. Em Itália, 27.967 mortos. No Reino Unido, 26.711 mortos. Em Espanha, 24.824 mortos. Em França, 24.376 mortos.

- Neste dia, em França, 24595 hospitalizações devido ao coronavírus. Em reanimação estão 3878 pessoas. Nos hospitais, já morreram 15369 pessoas e nos lares morreram 9132 pessoas. 





1.5.20

As escolas vão abrir! - parte 2

Se há coisa que este governo não é, é coerente. Todos os dias, ou todas as semanas, saem diferentes informações, por vezes contraditórias e uma pessoa fica sem saber para que lado se virar. Repito, não será fácil tomar decisões numa altura destas, em que tão pouco se sabe e se é  obrigado a encontrar o equilíbrio certo entre a saúde de um país e a sua economia, mas caramba isto cansa, mexe com os nervos, impossibilita que nos organizemos, que saibamos com o que contar.

Na terça, o primeiro-ministro francês apresentou o seu plano para o fim progressivo do confinamento. Foi anunciado que os jardim-de-infância afinal abrirão dia 11. Ah, então a Mini-Tété já não entra dia 25, mas dia 11, certo. A educadora entretanto mandou uma mensagem a todos os pais a perguntar a título informal quantos de nós estariam a pensar levar as crianças à escola no dia 25. Mas afinal é dia 25?
Não, é mesmo dia 11. Entretanto a associação de pais indica que em contacto com a Câmara Municipal, esta ainda não decidiu se a escola vai abrir ou não. Ok...De qualquer forma, o ministro da educação veio dizer que só poderão ser grupos de 15 alunos por sala e que portanto as escolas devem organizar-se para que cada grupo de 15 alunos vá dia sim e dia não à escola, ou semana sim e semana não. Claro que ainda não se sabe nada sobre a cantina ou o ATL, pelo que continuamos sem saber se há condições para regressar à escola e ao trabalho, embora se a escola abrir não haja propriamente escolha e os patrões vão exigir o regresso dos funcionários. Mesmo que dia sim, dia não, ou semana sim, semana não. Ah, não, afinal há escolha. Até ao fim de Maio, os pais trabalhadores podem mesmo decidir ficar por casa, continuando a receber o valor que têm recebido. Ah, então e agora? Decidimos o quê? Calma, porque entretanto vai sair um mapa de França com zonas verdes e zonas vermelhas, indicando assim as regiões onde o confinamento será menor e maior dado a existência do vírus, condições dos hospitais, etc. A associação de pais diz-nos que se estivermos numa zona vermelha, a escola poderá não abrir. Confirma-se: estamos numa zona vermelha. Então e agora? Na próxima semana teremos de responder a uma carta da Câmara indicando se estamos ou não a pensar levar a nossa filha à escola na semana seguinte, mesmo que ainda não se saiba se a escola vai abrir ou não e em que condições. Como podemos decidir?

Respira, Tété, respira.

26.4.20

As escolas vão abrir!

Em França, o governo decidiu começar a abrir as escolas a partir do dia 11 de Maio, primeiro para apenas alguns anos específicos, depois outros entrarão dia 18 e por fim os restantes anos, dos quais faz parte o ano da Mini-Tété, com regresso marcado para dia 25. Apenas os alunos universitários estão dispensados de aulas presenciais até ao início do próximo ano lectivo.

É compreensível que se queiram as escolas abertas o mais depressa possível pois o fecho destas leva a que milhares de pais esteja em casa, sem poderem trabalhar, o que não é viável para algumas pessoas e/ou empresas, sobretudo se nos lembrarmos que aqui um dos pais fica em casa com os filhos caso estes tenham menos de 16 anos, e não no máximo 12 anos como em Portugal.

Esquecendo a economia, claro que tudo isto parece à partida um enorme disparate pois a facilidade com que nas escolas as viroses se passeiam alegremente pela grande maioria das crianças leva a que rapidamente se pense que basta uma criança infectada para possivelmente contaminar logo as outras 29 (e respectivas famílias por arrasto...). Eu sei que em Setembro o vírus ainda por aqui andará pelo que adiar a abertura das escolas para essa data parece simplesmente um adiamento de um problema com o qual se vai ter de lidar na mesma, mas não deixo de pensar que muito provavelmente nessa altura os hospitais não estarão tão cheios como agora nem os médicos tão cansados.

E enquanto esperamos pela próxima semana para saber melhor como se processará este regresso escolar, vamos assistindo às diferentes declarações dos vários ministros e às opiniões do conselho científico que aconselha este governo. E é aqui que a porca torce o rabo, não só pela incoerência existente entre declarações como pela óbvia dificuldade que será executar algumas das medidas propostas.

Então, primeiro falou-se de apenas metade das turmas estar presentes nas salas, depois o número reduziu para 10 alunos por sala e já li algures que, nas turmas com crianças da idade da Mini-Tété, o número máximo de alunos pode mesmo ser apenas 5. Mas nesse caso onde estão as outras crianças? Em casa? E quem decide que crianças ficam em casa ou vão à escola? O ministro da educação informou-nos entretanto que o regresso à escola será na base do voluntariado. Como assim? Para os pais que trabalham, não haverá outra hipótese senão levar as crianças porque as empresas não entenderão porque razão ficarão os trabalhadores em casa se as escolas estão novamente abertas. Ainda assim, parece-me acertado que os pais com possibilidade de ficar em casa (por desemprego, teletrabalho, etc) tenham o direito a decidir se querem as crianças na escola ou não. Fala-se de manter as crianças afastadas umas das outras, talvez com uso obrigatório de máscara (entretanto li que pelo menos em crianças da idade da Mini-Tété esta não será usada), em mesas distantes, com o seu próprio material escolar (mas vão agora obrigar os pais a comprar material escolar para um único mês de escola?), com o seu almoço e talheres, uma vez que também há a possibilidade das cantinas não abrirem. No recreio brincarão separadas. Sinceramente, eu entendo tudo isto, entendo todas estas medidas, na teoria fazem todas muito sentido. Mas na prática? A Mini-Tété partilha o espaço exterior com a melhor amiga, nossa vizinha, da mesma idade. Compreenderam bem que não podem brincar juntas, fica cada uma do seu lado, e ainda assim, às vezes, porque são crianças, damos com elas a aproximarem-se. Tem de estar sempre um adulto por perto para relembrar a distância a manter. Como é que querem fazer isto nos recreios? 

E qual será o ambiente nestas escolas? A Mini-Tété não sai de casa há mais de um mês, ainda não viu ninguém de máscara, ainda não sentiu o ambiente esquisito duma simples ida às compras. Que vontade tenho eu de a ir entregar a uma escola, onde verá provavelmente uma série de adultos de máscaras, a fazer gincana para não se aproximarem uns dos outros enquanto seguram fortemente as suas crianças pela mão, num ambiente tenso e provavelmente com choros daquelas que não têm qualquer vontade de regressar à escola, com educadoras e auxiliares nervosas, ansiosas e preocupadas em gerir tudo da melhor maneira, procurando cumprir todas regras e fazer com que as crianças também as cumpram? Educadoras estas que terão não só de estar com aquelas crianças na escola como também terão de acompanhar as crianças que estão em casa e que têm a obrigação de terminar o programa escolar (aqui a escola é obrigatória a partir dos 3 anos e desde que o isolamento começou que há trabalho escolar em casa - e oh se eles têm coisas para aprender! Fica para outro post...). Que vontade tenho de a deixar numa escola onde não verá a maioria dos seus colegas, onde terá de estar afastada de todos os outros e dos adultos que a rodeiam, onde as regras  e rotinas serão completamente diferentes?

Sinceramente, não me tem incomodado minimamente a maneira como este possível isolamento a pode afectar. Tem 4 anos, esteve em casa comigo até aos 3 anos pelo que nada disto é novo (apenas não podemos sair para ir ao parque ou a outros sítios), não tem saudades da escola (gostaria apenas de poder brincar com a vizinha da frente), e daqui a 30 anos muito provavelmente não se vai lembrar disto (porque de facto não é uma situação assim tão nova e diferente). Mas tenho realmente receio deste regresso à escola, do ambiente que vai encontrar, da ansiedade e stress que poderá absorver...
Entendo praticamente todas as medidas na teoria, mas não acho sinceramente que na prática elas sejam assim tão fáceis de executar.
Resta-nos esperar por indicações mais precisas (e mais realistas) e ver como tudo se passará com as crianças e adolescentes que regressarão à escola nas primeiras datas indicadas, com a esperança que quando chegar dia 25 o sistema já esteja mais oleado e tudo se passe de maneira mais calma.