3.9.13

O Emigrante - A língua

Como já aqui disse conheci o Jack quando ele veio viver pela primeira vez para Portugal, tendo feito até então toda a sua infância em França. Lembro-me do sotaque dele, de ele carregar nos "r"s ou então, pelo contrário, ao tentar não o fazer acabava por não carregar na consoante quando o devia fazer (como na palavra "carro", por exemplo). E pronto, era este o meu contacto com alguém português que tinha vivido em França. De resto, ao longo da vida, fui ouvindo que os emigrantes tinham um pouco a mania de, quando estavam em Portugal, falarem francês misturado com português. Nos meus 20 anos, conheci a família do Jack, emigrante há bastantes anos em França, e comprovei que de facto falarem só português era coisa rara. Nada que me incomodasse por aí além porque não sentia que o fizessem para me chatear. 

Quando fui em Erasmus percebi realmente o quão difícil é mantermo-nos fiéis à nossa língua quando passamos uma temporada no estrangeiro. Eu estive apenas 9 meses fora e nos primeiros meses a comunicação foi feita sobretudo em inglês e depois em francês. E ainda hoje me lembro de, em conversa telefónica com o meu pai, ter dito "Je....ai....I...espera....Eu....", uma simples palavrinha como "eu" não me saiu de forma natural e disse-a primeiro em francês e depois em inglês. E estava em França apenas uns meses, por isso imagino quem aqui vive durante anos e anos. Oh, não tenho qualquer dúvida que daqui a uns anos me terão a fazer a mesma figura. Mesmo nestas férias em Portugal dei por mim a usar uma ou outra expressão em francês, porque era a primeira que me vinha à cabeça. 

Não é por isso por embirrantice, mas sim porque o francês é a língua utilizada todos, mas todos os dias, durante meses a fio pelos emigrantes (e quem diz o francês, diz outras línguas. Aqui falo dos emigrantes franceses porque são aqueles que conheço e por eu própria também o ser). Mesmo em casa, após o trabalho, o português deixa de ser a única língua utilizada, muitas vezes à conta dos filhos que entretanto entram na escola e começam a falar francês fluentemente. E é realmente complicado chegar a Portugal e lembrarmo-nos de todo um vocabulário que esteve adormecido durante meses. Para verem como as coisas são, dou-vos mais um exemplo: aqui em França tenho ido bastante ao correio. Em Portugal precisei de enviar uma carta e dirigi-me aos Correios. E quando estava na fila, apercebi-me que queria mandar a carta em "correio registado" mas não me lembrava da expressão certa. Em França diz-se "lettre recommandée" (e disso lembrava-me eu bem porque farto-me de o dizer), e eu sabia perfeitamente que não se dizia "carta recomendada". E aquilo chateou-me tanto, por não me lembrar da palavra portuguesa "registada" que até há bem pouco tempo tinha usado com frequência, que enviei a carta normalmente, sem preencher qualquer papel extra. 

Isto tudo para dizer que os emigrantes não falam outra língua para embirrar ou, como já ouvi, para mostrarem que são espertos ou para baralhar de propósito os portugueses que não os percebem (e acreditem que choca um pouco ler e ouvir estas coisas porque este é um daqueles pontos que penso ser de fácil compreensão). Eu própria, em Portugal, já chamei a atenção ao Jack por de vez em quando em conversa com o irmão começarem a falar francês, esquecendo que quem está com eles não percebe. Conheço-os e sei bem que não fazem de propósito, mas é a língua que usam para comunicar desde pequeninos. É o hábito.
Claro que há de certeza aqueles emigrantes chico-espertos que falam francês só para se armarem, assim como há portugueses nascidos e a viver em Portugal que usam palavras estrangeiras só para parecerem chiques. Há sempre umas aves raras assim. Mas não são a regra. :)

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