22.9.13

O Emigrante - O último texto

E pronto, assim se chega à última destas crónicas sobre os emigrantes. Deixo assim apenas umas últimas considerações que não me parecem necessitar de um post específico para cada uma delas.

Um dos pontos a referir é da alegria que é, para um emigrante, regressar a Portugal ou ter consigo no estrangeiro um pouco do seu país. É costume verem-se os carros com bandeiras de Portugal, cachecóis de Portugal ou até símbolos portugueses colados nos vidros (e tantos que eu vejo por aqui :)). Nunca tive tais adereços no carro mas durante o meu ano de Erasmus cheguei a usar no meu casaco um pin da bandeira de Portugal. Não sei se foi o orgulho de ser portuguesa, se foi querer usar algo com um símbolo português ou se havia qualquer outra razão, mas gostava de usar aquele pin. Sendo uma pessoa discreta, nunca usei t-shirts ou camisolas, mas estas também são muito usadas pelos emigrantes. Acho que no fundo é a nossa maneira de mostrar que nos continuamos a sentir portugueses e que continuamos a gostar do nosso país. Aliás, dúvidas houvesse quanto a isso, bastaria olhar para a quantidade de emigrantes de regresso a Portugal nas férias para perceber de imediato que o gosto pela pátria nunca morre.

Cheguei a ler uma crítica sobre como os portugueses são gente pequenina, que chegando ao estrangeiro, procura não chamar a atenção e trabalhar que nem uns mouros, confundindo-se com o resto da população. Quem escreveu isto esqueceu-se muito provavelmente de acrescentar que é devido a este esforço que os portugueses são bem aceites (ideias pré-concebidas à parte) nos países para onde vão. Porque chegam e trabalham, sem arranjar confusões ou sem tentar tornar português um país que não é o deles, ao contrário do que acontece com pessoas de outras nacionalidades. Talvez em França, os portugueses (ainda) sejam vistos como um povo com fraca cultura (o que é compreensível uma vez que a primeira grande leva de emigrantes era de facto uma geração com poucos estudos) mas penso que nos vêem como um povo de coragem, trabalhador e pacífico (ou como me chegou a dizer um francês "Os portugueses são mais calmos que os franceses, não fazem tantas manifestações, greves e assim. Bem, a não ser quando se chateiam a sério e depois fazem revoluções como no 25 de Abril). É verdade que agora somos mais cultos, temos mais estudos, mas após ver alguns casos de alguns jovens da minha idade (homens feitos, portanto, quase com 30 anos) que chegados aqui não aguentam o trabalho e o esforço e voltam a correr para Portugal sem hesitar, penso se não iremos passar a ser conhecidos como um povo com mais cultura mas sem coragem. Claro que nem todos somos assim, mas há que realmente dar valor à antiga geração de emigrantes.

Aliás, nestas férias ouvi a seguinte frase "Portugal é conhecido por ter um povo corajoso, principalmente pelas descobertas que fez no tempo dos Descobrimentos. É preciso não esquecer que esses que foram, esses corajosos que partiram, que se fizeram ao mar e a novas aventuras, não voltaram. E o país que temos hoje é constituído por aqueles que não tiveram coragem e que nunca chegaram a sair de Portugal". Claro que isto não pode ser levado à letra, mas é um exemplo de que é muito fácil falar dos emigrantes sem saber o que eles passaram e sem saber a coragem que é necessária para abandonar o nosso país. Ficar em Portugal e falar é muito fácil e para isso qualquer um tem coragem.

Por fim, tenho de tirar o chapéu a muitos emigrantes, que mesmo ouvindo o que muita gente diz sobre eles (e não digo piadas com humor, digo mesmo autênticas idiotices), todos os anos regressa a Portugal. Mesmo ouvindo que o carro não lhes pertence e que foi alugado. Mesmo ouvindo as pessoas gozarem ou fazerem má cara quando se enganam e falam em francês ou inventam palavras. Mesmo quando os acusam de causar acidentes nas estradas e não saberem conduzir. Mesmo quando se riem das suas camisolas da selecção ou do estilo de roupa diferente. Mesmo quando lhes dizem que emigrar é cobardia. Mesmo quando lhes dizem que trabalham quem nem tolos e continuam na mesma. Mesmo quando, e já ouvi várias queixas nesse sentido, chegam a Portugal e os portugueses os fazem sentir estrangeiros no seu próprio país (e isto é triste. Estupidamente triste. Eu própria neste Verão perguntando a um homem da minha idade qual a sua profissão, tive como resposta isto: "Huuum, como é que eu te vou explicar....É que pelo que percebi tu nem vives cá não é?". O facto de ser emigrante significou para ele passar-me um atestado de idiota). É que acreditem: estar assim, mais no centro da Europa do que na cauda, é óptimo para viajar e conhecer outros países que estão aqui muito mais perto. Eu mesma quero aproveitar enquanto aqui estou e fazer por aí umas visitas. Mas por enquanto, e à boa moda dos emigrantes, cada vez que penso em viajar, compro bilhetes para...Portugal. É verdade que podem dizer o que quiserem dos emigrantes, mas se nem isso os faz perder o gosto pelo seu país, então são mesmo umas pessoas de coragem. Além do mais regressam a Portugal para gastar o dinheiro ganho no estrangeiro. Constroem casas em Portugal pelas quais pagam o IMI. Maior ajuda financeira não podiam dar. Se calhar quando deixarem de aparecer em Portugal, quando deixarem as estradas livres no Verão, quando não construírem casas, quando não confundirem ninguém com o seu francês e expressões diferentes, talvez até passem a ser vistos com outros olhos. Mas até lá, serão sempre os nossos emigrantes, tão parecidos e tão diferentes dos restantes portugueses. E ainda bem. :)

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