20.9.13

O emigrante - Os carros e as casas

Associamos geralmente a vinda dos emigrantes ao aumento do número de carrões (ou seja, bons carros, carros de marca, carros caros) nas estradas. A eles são também associadas as grandes casas construídas em Portugal. Este Verão, vi algures na blogosfera alguém que dizia que estes grandes carros eram alugados só para serem trazidos a Portugal e mostrados aos portugueses que não emigram. Também vi quem comentasse o desperdício de ter um bom carro (julgo que se referia a um ferrari) numa garagem em Portugal (dizendo até que era dinheiro mal gasto). Ou quem dissesse que assim se nota que os emigrantes são pessoas tão pobres (de espírito) que a única coisa que têm é dinheiro. E por aqui podia continuar mais um bocado porque está visto que a quantidade de emigrantes a visitar Portugal no Verão é directamente proporcional aos disparates escritos blogosfera fora.

Confesso que neste ponto tive de pedir ajuda ao Jack para que confirmasse aquilo que eu já suspeitava. Volto a repetir-me: faço parte de uma nova geração de emigrantes pelo que as atitudes e hábitos meus podem não ser os mesmos que os da geração mais antiga. Contudo, por vezes aquilo que nos move é o mesmo. Numa das minhas visitas a Portugal dei por mim a esforçar-me por convencer algumas pessoas que estava bem em França. Aliás, que estava bem melhor em França do que em Portugal. Que embora desempregada, acreditava piamente que hei-de encontrar emprego mais depressa do que se estivesse em Portugal, pelo que vale mesmo a pena estar aqui. Que ao menos aqui, com apenas um salário, temos uma boa casa e uma boa vida a dois, algo impensável em Portugal. Tudo isto para contrariar olhares e bocas não ditas que se traduziam por um "Para estares desempregada, mais valia não teres emigrado", entre outras coisas.

Os carros e as casas existem pelo mesmo motivo: para mostrar o porquê de se ter emigrado (não só, claro, mas é uma razão). Diz-me o Jack que não são poucos os emigrantes que, regressando a Portugal de férias tal como tinham ido, ouviam um "Para ficar na mesma, porque é que emigraste?". Nasce assim a necessidade de se mostrar que lá fora se arranja dinheiro, que lá fora conseguem comprar coisas que em Portugal não conseguiriam, que lá fora a vida lhes está a correr bem, para não serem alvo de gozo por parte daqueles que ficaram. Porque sejamos sinceros, ganha-se mais dinheiro fora de Portugal do que em Portugal, mesmo com trabalhos de poucos estudos como porteira, pedreiro ou pintor. O salário mínimo em França são cerca de 1400€. Praticamente três vezes mais daquele que se ganha em Portugal a fazer o mesmo trabalho. O problema é que se o emigrante não o gastar, se decidir poupar e manter o carro velho que tinha, quem olha para ele acha que foi estúpido emigrar para se continuar na mesma.

Claro que a necessidade de se mostrar que vale a pena ter emigrado não é a única razão. Outra razão para se comprarem grandes carros e se construírem grandes casas é: porque se pode. Porque embora o ritmo de trabalho no estrangeiro seja uma doideira, porque embora o trabalho seja pesado, porque embora até se pudesse fazer esse tipo de trabalho em Portugal, a verdade é que no estrangeiro o trabalho é bem pago. E quem é que tendo dinheiro não o usa? Compram-se assim bons carros (algo que a maioria dos homens aprecia) e constroem-se boas casas para passar as férias, para um dia viverem na reforma, para ficarem para os filhos. Já eu, mal arranje um emprego, pretendo utilizar esse dinheiro para viajar, porque os tempos são outros e os sonhos também. Mas se os sonhos de antigamente eram um boa casa em Portugal, fico feliz por muitos emigrantes o terem conseguido. Só quem acha que em França se ganha o mesmo que em Portugal é que se lembraria que os carros são alugados. Só quem não entende o que é viver no estrangeiro e o quanto sabe bem um bom mimo pago com o nosso esforço é que não entende o porquê do ferrari na garagem ou uma boa casa portuguesa não habitada a maior parte do ano. Mesmo eu, com os meus sonhos e objectivos mais modernos, tenho a ideia de poupar e ter a minha casa em Portugal. Este é mais um daqueles pontos que eu não acho assim tão difícil de compreender. Mas talvez seja. Afinal de contas li há pouco tempo que emigrar era um sinal de cobardia. E quem assim pensa não pode compreender tudo o resto. :)

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