6.2.14

Eu também quero falar da praxe!

Não gosto de assistir a debates televisivos (e então debates na rádio é que não me apanham mesmo a ouvir), porque me irrita as interrupções constantes a quem está a falar, a fuga que muitos comentadores insistem em fazer a determinadas perguntas, respondendo apenas o politicamente correcto ou desviando o assunto, e a barulheira que é ter duas ou três pessoas a insistirem em falar ao mesmo tempo. Ainda assim, depois de muito sururu em redor do último Prós e Contras, decidi assistir para pelo menos perceber de que falava metade dos blogs que leio: a velha questão das praxes.

Eu já aqui referi que não sendo uma convicta anti-praxe, também não sou a maior das defensoras. Não tive uma praxe violenta, mas sim uma praxe seca e lamento mas não acho que passar quatro horas com o rabo sentado na calçada portuguesa (meu rico rabinho), sem poder falar com os outros caloiros, tenha sido um máximo em termos de integração. Mas lá porque eu não tive uma praxe violenta, não significa que ela não exista. E não gosto do argumento "Ah, mas isso não é praxe". É. Pode ser não aquilo que os defensores de uma praxe justa e limpa gostariam de ver em todas as universidades, mas sim, aquilo é praxe, na medida em que a feita em grande parte das universidades e é apelidada de "praxe". Da mesma forma que a Tupperware é uma marca de caixas de plástico para armazenamento de comida, caixas que vão ao congelador e ao microondas, etc, etc, mas nos dias de hoje chamamos tupperware a tudo o que seja caixa de plástico com estas características, mesmo que seja de marca branca. Não vêem ninguém pedir um tupperware emprestado e alguém responder "Ai, desculpa, tupperware não tenho, mas tenho aqui uma caixa-de-plástico-para-comida-que-vai-ao-congelador-e-ao-microondas da marca pingo doce, serve?". Ou seja a praxe quando foi criada poderia ter todos as intenções mais perfeitas do mundo, mas neste momento chama-se praxe à integração verdadeiramente dita e aos actos violentos também. Neste momento, se surgisse a notícia de que os tupperwares são um risco para a saúde (já agora, os de vidro são preferíveis aos de plástico, sim?), ninguém ia pensar "Ok, vou deitar fora aquele que ali tenho da marca Tupperware, mas fico com os outros cinco da marca Continente". Na verdade, seriam todos colocados de lado pois nos dias de hoje a palavra tupperware engloba a própria marca e todas as outras. Da mesma forma, a palavra praxe engloba todas as praxes com boas intenções e todas as outras.

Por isso, sim, o que se passa na maioria das Universidades é praxe e alguma coisa tem de ser alterada. Eu já disse: a minha praxe não foi violenta, mas se calhar eu até tinha gostado mais se não tivesse sido baptizada com água da ria, se não me tivessem posto ovos e farinha no cabelo. Se fui para casa a chorar? Não. Mas exactamente de que forma é que um ovo e farinha no cabelo (e uma boa conta da água para conseguir tirar aquilo no duche) me ajudou a integrar na Universidade? Eu confesso que agora, 10 anos depois, olho para trás e sei que se soubesse o que sei hoje, não teria posto um pé na praxe. Continuo a dizer que ter pessoas aos berros, impedindo-me de falar com os outros caloiros e pregando-me horas de seca, não valeu de grande coisa.

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