24.8.15

O meu vizinho

O meu vizinho não fala, berra. Ainda hoje acordei com ele aos berros por cima do barulho do martelo e do berbequim. Não sei porque razão não fica afónico só de vez em quando para podermos ter um bocadinho de descanso e dou graças a Deus ele não viver num dos apartamentos que aqui tem no prédio porque assim só o ouvimos durante umas horas, quando cá vem fazer obras. Berra com toda a gente, ao telefone ou presencialmente, e berra tanto com os empregados que acredito que seja essa uma das razões pelas quais não há equipa que aqui aguente muito tempo e já não seja a primeira vez que um pintor, por exemplo, desaparece e deixa apenas meia parede pintada.

Este Verão tem aparecido com outro homem e lá vão avançando as obras nos apartamentos que tem. Todos os dias o meu vizinho berra. Mas não sei que relação tem ele com este homem (mas será bem mais do que um contrato de trabalho, possivelmente serão amigos ou mesmo familiares) porque este lhe responde, e aos berros, se assim for necessário. Claro que para mim passam a ser dois a berrar em vez de um mas ao menos haja alguém que não se encolhe perante os gritos do meu vizinho.

O "interessante" nisto é que não discutem apenas e só por coisas importantes.
A semana passada estiveram mais de uma hora a berrar um com o outro mas já a um nível em que eu esperava que eles começassem à batatada tais eram os insultos e os gritos que ouvia. O nível de som era tão alto que eu até conseguia perceber sobre o que era a discussão: umas pintas no chão. Um dizia que era tinta, outro dizia que era outra coisa qualquer. Pelos vistos, fosse qual fosse o caso, daria para  limpar mas o importante era descobrir o que era aquilo.

Noutro dia, ao sair do prédio com o Jack, lá estavam novamente eles aos berros um com outro, em confusa discussão, a dar espectáculo para toda a rua (não só trabalham de janelas abertas como não é raro um estar fora do prédio e outro estar lá dentro enquanto discutem). Comentei com o Jack que o assunto devia ser sério para o cenário ser aquele e ele comenta "Estão a discutir bolos". Desculpa?? "Sim, estavam a discutir quantidades de açúcar, farinha....".

E nesta alturas uma pessoa tem de aceitar que se o homem berra daquela maneira por coisas menores, é realmente impossível esperar que ele um dia consiga ter uma conversa connosco a propósito de situações importantes no prédio sem desatar aos gritos. Estamos no fundo a exigir demasiado dele e com expectativas que ele nunca poderá cumprir.

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