Ontem estive entretida a ver a entrevista feita a Vítor Norte. O Jack ia ouvindo aos pedaços pediu-me a certa altura para que lhe enviasse o link para depois ouvir a entrevista por completo uma vez que estava a achá-la interessante. Disse-lhe que lhe mandaria o link, sim, mas disse-lhe que a entrevistadora era nem mais nem menos a Sara Norte, filha do entrevistado. Olhou para mim espantado e disse que então em vez de interessante era...bizarro. E é. Logo à partida porque a Sara não é jornalista e não tem qualquer jeito para entrevistar. Não tenho nada contra a Sara, adorava-a como actriz e não perdia um episódio do "Médico de Família", porque no fundo a Sara era eu. Não que o meu pai fosse médico, mas eu também tinha um irmão mais novo, amigas, e enfim, ela tinha a minha idade e passava pelos mesmos problemas que eu poderia passar. Sempre tive uma certa pena de não a voltar a ver na televisão, a prisão dela espantou-me e custou-me saber que ela tinha perdido a mãe enquanto esteve presa. Há desgraças que nos acontecem porque nos dispomos a isso (a partir do momento em que transporta droga e isso é ilegal, a prisão não é uma surpresa), mas a morte de uma mãe não é culpa nossa e tenho pena que isso lhe tenha acontecido. Quando estive em Portugal comprei o livro da Sara e tinha acabado de o ler ontem (é pequenino, lê-se em dois dias) quando me deparei com esta entrevista, em que ela fala dela própria na terceira pessoa. É realmente bizarro.
Em relação ao Vítor Norte sempre lhe achei uma certa piada porque era o carpinteiro da Rua Sésamo e falava com o Poupas. Ora se falava com o Poupas era porque era boa pessoa. E não houve Big Brother, divórcio e notícias cor-de-rosas que me tirassem esta ideia da cabeça (o poder que a Rua Sésamo tem na mente de uma criança). Ainda assim, dei por mim a torcer o nariz a algumas coisas que ele diz nesta entrevista.
Não entendo porque razão um pai que se separa e sente o afastamento da filha não luta mais por ela. Não entendo ainda para mais quando esse divórcio tem como uma das causas a dependência de drogas por parte da mãe, ele não tenha tentado estar mais presente de forma a vigiar a vida dos filhos. Mesmo quando a filha entra na Universidade e começa a dar-se com o mundo da droga, Vítor defende que a filha tinha a suas responsabilidades e que não sente que devia ter estado mais presente. É verdade que a partir dos 18 anos somos adultos aos olhos da lei, mas isso não liberta os pais das suas funções. Cabe-lhes a eles manterem-se atentos à nossa vida, encaminharem-nos, sobretudo porque eles já tiveram a nossa vida e já passaram pelas encruzilhadas pelas quais nós passámos. Eu não sou o tipo de filha que conta tuuuuuuuuudo aos pais, mas sei que eles estão atentos, e se começarem a achar algo estranho apertam o cerco, mesmo tendo eu quase 30 anos. Porque são meus pais e não estão a lavar as mãos de mim agora que sou adulta. Não entendo porque razão não se preocupou quando viu a Sara, dependente de drogas, regressar a casa da mãe, também ela dependente de drogas. Sou a única a achar que tudo isto tinha tudo para correr mal? Acho infeliz a declaração de que há muitos empregos disponíveis e que nada obrigava a filha a trabalhar num bar de um clube de strip, provocando-lhe uma grande vergonha a ele (não sei em que país vive o Vítor Norte mas não há assim tanto emprego além de que a Sara queria um emprego que lhe sustentasse o vício, pelo que nem todos os empregos lhe dariam isso). Não entendo que pai é este que se afasta tanto da filha que nem se apercebe que ela viveu duas relações onde foi vítima de violência doméstica e chegou a ir, nas duas, parar ao hospital.
Quando a Sara é presa, Vítor Norte decide ajudá-la (e ainda bem) mas não entendo como conseguiu passar anos sem contactar com a filha. Que estava zangado com as escolhas da filha tudo bem, eu até entendo, mas não parece razão para desistir assim. Lá está, sei bem que se decidisse neste momento retirar os meus pais da minha vida, eles não permitiriam tal coisa. Principalmente se o motivo fosse a minha ida por maus caminhos.
Por fim, quando se fala do livro, acho ridícula a posição de Vítor Norte, que se esquece completamente que o livro é sobre a experiência da Sara e não sobre o ponto de vista dele. É ridículo querer que a filha escrevesse naquele livro tudo o que ele fez, trabalhou e se sacrificou para ela andar em colégios privados. Eu também andei num na Primária e sei agora o esforço que os meus pais fizeram, mas na altura, para mim, era apenas uma primária como as outras. Na minha perspectiva infantil daqueles anos não entra o esforço dos meus pais, o qual só fiquei a saber anos mais tarde. A Sara refere que chovia em casa, e Vítor queria que fosse referido o lado dele, o sofrimento dele. Se para ele é assim tão importante, que escreva ele um livro sobre isso. Aliás, a Sara refere isso mesmo: o livro é dela e sobre o que ela conhecia e sentia. Vítor continua: o livro diz que eles viveram na Curraleira. Atenção, exclama Vítor, ele nunca viveu na Curraleira, o livro mente! Ele viveu numa rua que é a última rua antes da Curraleira. A sério que é necessário tal preciosismo e tal indignação?
Por fim, acho triste a ausência de resposta directa quando Sara lhe pergunta se ele continuaria a apoiar a filha caso ela voltasse a ser presa. Senti que nesta entrevista Vítor Norte tentou simplesmente explicar que ele não teve culpa nenhuma, que a filha é que lhe fez mal a ele e que não tem qualquer responsabilidade nesta história. Eu concordo que não foi ele que drogou a filha, que a tornou dependente nem a obrigou a servir de mula de tráfico, mas ainda assim, acho que alguma responsabilidade ele terá nesta história toda. Nem que seja por não ter estado mais presente. O que a Sara Norte fez foi uma estupidez de todo o tamanho e acho-a 100% responsável, assim como acho que não merecia menos que a prisão. Mas o Vítor Norte é o pai e pelas declarações aqui da entrevista e do livro (porque eu não o conheço pessoalmente de lado nenhum) não acho que ele também tenha feito a sua função a 100%.
E por favor, deixem-se deste tipo de entrevistas. É bizarro.